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23 fevereiro 2015

O que vem por aí...

Prólogo
Era dezembro, eu me lembrava. Em meio a toda aquela neve que caía, eu o encontrei: sentado na grama coberta pelo manto branco, a cabeça pendia levemente para o lado e os olhos estavam perdidos no céu estrelado da cidadezinha de Holbrook. Eu só tinha nove anos naquela época, mas eu sabia. Eu sempre soube. Nunca, nem se eu nascesse de novo, amaria alguém como o amei.
  Porém...
  Aproximando-me devagar, fiquei observando-o por um tempo, silenciosamente, aproveitando os instantes que restavam antes dele perceber que eu estava lá e me expulsasse. Ele nunca me notou, e eu sabia que era bobeira me apaixonar por alguém que nem se importava comigo, mas entenda o meu lado: eu não tive escolha. Não é como se você decidisse por quem se apaixona. Não é assim. Se você já se apaixonou, vai entender o que estou dizendo... só espero que a sua história seja um pouco diferente da minha.
  Nossos pais eram amigos, mas isso nunca me deu vantagem alguma. Ele era frio, indiferente à minha presença. No começo, eu até achei que fosse timidez, porém o tempo me mostrou o contrário. Ele realmente não gostava de mim. Sei o que você está pensando: "Nossa, que masoquista". Sim, essa seria uma boa definição para mim, pelo menos naquela época. Contudo, mais uma vez, entenda: não foi minha escolha.
  Você pode estar se perguntando: "Por que diabos ela se apaixonou por ele, então?" Minha resposta: nos poucos momentos em que ele falava, olhava, fazia qualquer coisa senão me ignorar, era a melhor sensação que eu já experimentara. Ele sabia ser gentil, carinhoso, um completo cavalheiro, e por isso eu dava todo crédito à Holly, mãe dele. Por trás de toda aquela armadura que vestia, a de menino intocável, indolente, eu sabia que estava o verdadeiro Trent, aquele que nas raras horas em que se permitia relaxar despedaçava meu coração com apenas um sorriso.
  Ele e a família se mudaram naquele dia. No dia em que eu tive coragem de me declarar e dizer tudo que ficara entalado na minha garganta por três anos. Mas, convenientemente - e naquele ponto eu não devia mais me surpreender -, ele só se levantou, manteve os olhos inexpressivos e brilhantes sobre os meus por alguns segundos que pareceram décadas e saiu, passando carinhosamente a mão sobre o meu cabelo.  Ao ver seu perfil de relance, pude notar que ele contorcia os cantos da boca, como se segurasse o choro. Fiquei paralisada, fincada no chão, estupefata, tentando engolir o nó que se formara na garganta. Não tive nem a oportunidade de dizer um “ai” sequer.
  Foi a última vez que o vi. Bom, pelo menos até os meus dezessete anos.

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