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02 junho 2016

O Príncipe Herdeiro - Capítulo 6

Escuro. Está tudo escuro.
            Esperei o toque afiado e mortal da faca em minha garganta e a queimação do corte, mas o mundo parecia congelado. Ainda de olhos fechados, minha vida passou por diante deles naqueles poucos segundos que pareceram eras. Treze anos, grande vida. O rosto de minha mãe, seus cabelos ruivos e olhos azuis brilhantes tomaram conta da minha mente, seguidos da imagem de Merodac, seu sorriso, e subsequente morte.
            Quanto tempo até os sinos começarem a tocar, a luz inundar o mundo e os grandes portões do Céu serem abertos? Parece que estou aqui há décadas.
            Uma voz. Seria Deus? Não… não era uma voz. Espere, é uma risada. Uma risada doce e divertida. É isso que chamam de Paraíso? Tinha mais expectativas.
            Abri os olhos e me surpreendi ao constatar que ainda estava em Albus, na Floresta das Lamentações. Fiquei mais surpreso ainda ao ver a bela menina de cabelos tão negros quanto a noite, que caíam como cascatas emoldurando seu rosto anguloso e fino. Sua pele lembrava aquela iguaria que os senhores pagavam tão caro. Qual era o nome mesmo? Ah, chocolate.
E os olhos, tão prateados quanto a Lua.
            ‒ Qual é o seu problema? - ela perguntou meio brincando, meio irritada.
            Pisquei, atônito.
            ‒ Você não pode estar falando sério - bradei, incrédulo. - Você aparece como uma maluca psicopata, praticamente pula em cima de mim e agora me repreende?
            ‒ Perdão! A culpa não é minha se você não passa de um medroso - provocou, olhando-me de soslaio. Estalou a língua e me ofereceu a mão. - A propósito, meu nome é Teresa e estou aqui para ajudá-lo, então deixe de ser um bebê chorão. E vamos andando. Temos que ir... ou eles irão nos capturar.
            Continuei no chão encarando aquela menina como se fosse um alienígena. Também não gostei do modo como ela pronunciou “eles”. O que estava acontecendo aqui?
            Teresa bufou alto, revirando os altos.
            ‒ Você vai levantar ou terei que carregá-lo nas costas?
            ‒ Por que… - balancei a cabeça, organizando meus pensamentos. - Espere um pouco! Como você pode aparecer do nada, me assustar para caramba e um pedido de desculpas resolver tudo? Eu achei que você queria me matar! E, além disso, o que foi aquele brilho por entre o seu manto?
            ‒ Sem drama, Bel! Caso não tenha ouvido, não temos tempo para conversa.
            Ela me puxou com força, obrigando-me a levantar. Cruzamos o rio com ela praticamente me carregando e adentramos a floresta, desviando habilmente dos galhos na altura de nossos rostos; ela andava a passos largos como se conhecesse o caminho.
            Levei algum tempo até me dar conta do que ela dissera. Parei de andar e soltei sua mão.
            ‒ Como sabe meu nome? - perguntei com repentino medo.
            ‒ Isso é irrelevante - desconversou. - Com o tempo você irá entender. Agora vamos logo. Merodac deveria estar aqui, você é muito mole! - disse, irritada. - Se continuar fazendo perguntas desnecessárias fora de hora, eles vão nos encontrar, e estaremos em sérios problemas.
            ‒ De novo! - exclamei. - Como sabe meu nome e do meu irmão? Isso não faz o menor sentido! Eu não faço a menor ideia de quem você seja. E você com certeza é bem mais nova do que eu, então se tivesse aparecido na minha vida eu definitivamente lembraria da sua cara.
            ‒ Na verdade, sou um ano mais nova que você - ela me corrigiu com paciência, parecendo desapontada.
            ‒ Isso não importa! Me responda de uma vez - ordenei. - Quem é você, como sabe meu nome e quem está nos….
            Teresa remexeu as mãos, falando em uma língua que não reconheci. A cada palavra meu corpo parecia mais leve, como se minha alma estivesse saindo dele, até que ela finalmente parou de falar e tudo à minha volta escureceu mais uma vez.

***

            Senti algo gelado em meu rosto, despertando-me.
            O mundo à minha volta era um breu novamente. Por um minuto pensei que fosse um sonho, mas, quando minha visão se acostumou à falta de luz, avistei Teresa ao meu lado. Analisando os arredores, notei que estávamos em uma clareira. Chovia brandamente; pesadas gotas que atingiam o verde do chão ou então as pequenas poças que tinham sido formadas. Teresa olhava atentamente para além da cobertura de árvores. Por curiosidade, fiz o mesmo e avistei uma sombra.
            ‒ Você viu isso? - perguntou em tom sério. Murmurei, ainda surpreso com a aparição. - São Espíritos da Lamentação. Almas de pessoas que morreram e ainda não encontraram a paz, por isso vagam sem rumo.
            Percebi o nervosismo em suas palavras, mesmo que ela estivesse tentando camuflá-lo. Era a primeira vez que Teresa não demonstrava confiança, o que me preocupou.
            ‒ Eles são perigosos? - questionei com cautela. Ela girou o corpo e trocamos olhares, que significaram mais do que qualquer palavra. Engoli em seco.
            ‒ Eles absorvem a vitalidade de humanos ou possuem seus corpos na tentativa de recuperar uma forma física. Não são tão difíceis de escapar, mas é melhor não arriscar.
            Assenti, olhando novamente para os limites da clareira e avistando mais deles. Suas lamúrias eram altas e ritmadas, como se eles estivessem conversando entre si, fazendo-me questionar se a menina da Floresta que Merodac tinha me contado na verdade era um deles. Agora, a história não parecia tão fictícia.
            Teresa suspirou ao meu lado e pelo canto de olho pude vê-la se encolhendo, seu corpo praticamente contorcido em uma bola. A temperatura estava ainda mais baixa por causa da chuva. O inverno aos poucos mostrava suas garras. Estudei-a, tentando entender como ela sabia de tanto. Obviamente ela ignoraria minhas perguntas dizendo que ainda não era hora, mas eu estava muito curioso. Acerca dela e do que tinha para me contar.
            ‒ Por que não estão se aproximando? - perguntei, tentando puxar assunto e quebrar aquele silêncio desconfortável.
            ‒ Usei magia para impedir que cheguem perto. Talvez consiga enxergar ondas de energia ao nosso redor, se fizer um esforço. - Ela chutou uma pedrinha à sua frente, distraída.
            ‒ Magia? - zombei. - Isso por acaso existe?
Teresa me fuzilou com o olhar, e imediatamente ponderei que, se fosse realmente verdade, ela poderia me matar agora mesmo. Mas, felizmente, ela só revirou os olhos. ‒ Sim, existe - respondeu como se eu fosse um estúpido.
‒ Então, você é uma bruxa?
            ‒ Prefiro o termo feiticeira.
            ‒ Isso quer dizer que você…
            ‒ Cale-se - ela ordenou, cortando minha frase. - Precisamos ficar aqui até o amanhecer, quando os espíritos desaparecerão, por isso temos bastante tempo. Vou te explicar algumas coisas, então fique quieto e escute.
            Assenti, sentindo-me como um cachorro ao receber uma bronca de seu dono. A mão direita de Teresa desapareceu em seu manto, o braço firme como se segurasse algo ali dentro.
            ‒ Venho de um país chamado Pavlopetri, uma das ilhas ao extremo norte do continente, da qual minha família é regente. Lá, diferente do resto do continente, a magia é bem vista. É por isso que você ficou com essa cara de idiota quando mencionei a proteção. Muito poucos são os humanos em vida que têm conhecimento da existência da magia. Após o Grande Expurgo, quando as grandes famílias de magos e feiticeiros foram expulsas de Vaalbara, a magia e a feitiçaria foram esquecidas.
            ‒ Ok, mas isso não explica como você sabe meu nome e do meu irmão.
            ‒ Dá para esperar? - reclamou com cenho franzido. - Já estava chegando nessa parte. Mas onde estava mesmo? Ah, é. Como é tradição em minha família, aquele que nasce com o dom da clarividência torna-se o novo regente. - Percebi que sua voz vacilou nas últimas palavras e logo entendi o porquê. - Há poucos dias, minha mãe, Sasha, faleceu.
            Esperei que dissesse mais alguma coisa, mas Teresa se calou. Os únicos sons a serem ouvidos eram os da chuva e dos lamentos dos espíritos. Ao examinar Teresa, pela primeira vez percebi que as gotas de chuva desapareciam um pouco acima de sua cabeça, efeito da proteção mágica que fizera. Suspirei fundo, querendo consolá-la, mas não sabendo se ela receberia o gesto positivamente. Depois de ouvir sua história, até passei a ter o mínimo de empatia. Não éramos tão diferentes, afinal de contas.
‒ Sinto muito - foi o que consegui dizer.
‒ Ela era a regente da família -  Teresa continuou como nada tivesse acontecido -, e, sendo o oráculo, previu que eu encontraria um menino de cabelos cor de sangue chamado Belsazar. Você, caso não esteja entendendo.
            ‒ Não sou retardado - falei na defensiva.
            Teresa deu de ombros, divertindo-se.
            ‒ Ela também falou sobre uma criança nascida da nobreza, mas isso eu não...
Pelo canto de olho, notei algo reluzente cruzando o ar com velocidade e se aproximando de nós, tingindo o mundo de vermelho e não dando chance de desviarmos.

***
De algum modo, estava deitado no chão, meu corpo intacto. Olhei ao redor e havia fogo por todos os cantos da clareira. Os espíritos tinham desaparecido e em seu lugar havia um grupo trajando mantas negras com detalhes em dourado. Teresa estava aos meus pés, o nariz sangrando e a têmpora chamuscada por conta do fogo. O grupo se aproximava a passos lentos, e eu sabia que precisávamos sair dali o mais rápido possível.
            Não sei de onde tirei forças para colocá-la em minhas costas e começar a correr. Segui em frente, mas a mesma matéria reluzente passou zunindo em meu ouvido e incendiando as árvores à minha frente.
            ‒ Ah, então são bolas de fogo - resmunguei, ficando os pés no chão.
            Consegui parar a tempo, quase caindo devido à terra molhada e a dificuldade em conciliar o peso em minhas costas e a parada brusca. A clareira estava quase completamente envolta por um círculo de fogo, um pedaço à direita sendo nossa única chance de escapar. Corri até lá, pulando uma das árvores que caíra e segurando com força o corpo de Teresa ao meu, por pouco não a deixando cair em meio ao salto.
            Minha respiração estava pesada e minhas costelas doíam. Minhas pernas, bambas por causa do peso e esforço excessivos. Me permiti dar uma espiada por sobre o ombro, constatando que os encapuzados ainda estavam atrás de nós com aquele mesmo ritmo lento de antes.
            Como isso é possível? Será que estou tão lerdo assim?
            Não tinha muitas opções de fuga, fora continuar correndo sem rumo ou pular no rio e tentar a sorte em ser levado pela correnteza - que agora estava bem forte - e não morrer de hipotermia no meio do caminho. Nenhuma das duas parecia nada acolhedora, mas eu já estava no meu ápice. Não tardaria até minhas pernas desligarem, então eu e Teresa cairíamos nas mãos deles.
            ‒ Ast - ouvi algum dos encapuzados gritar e girei o corpo para trás, ainda correndo, querendo saber o que estava acontecendo.
            Uma labareda de fogo surgiu de sua mão estendida e veio com tudo na minha direção. Parei de correr, parei de fazer qualquer esforço para continuar em pé, e desabei no chão, a chama passando rente ao meu cabelo e queimando-o nas pontas. Teresa voou das minhas costas, aterrissando perto da margem do rio. O rosto estava cheio de cortes e a aparência da queimadura na têmpora não passava nem perto das melhores. Tentei levantar, mas voltei ao chão, gemendo de dor. Durante a queda, tinha torcido o tornozelo esquerdo. Apoiando-me em uma das árvores, fiz força com o pé direito para me levantar e ir até Teresa pulando em um pé só.
            ‒ Ast.
            Outra labareda passou muito próxima a mim, atingindo uma árvore e pondo-a em chamas. Engoli em seco com uma careta de dor, a poucos metros de Teresa. Os encapuzados riam de nós, parecendo estar aos montes. Dei um último impulso para alcançar Teresa, caindo ao seu lado. Dei uns tapinhas em seu rosto, para ver se acordava, mas foi em vão.
Lágrimas enchiam meus olhos e minha cabeça latejava pela torrente de pensamentos. Minha aventura chegara ao fim. Um pouco depois de eu ter achado que ela terminaria, afinal. E terminaria sem eu saber a verdade completa; quem era Teresa e como ela sabia tanto, principalmente sobre mim e Merodac. Olhei para ela, deitada na grama com o rosto iluminado pela luz da lua, os olhos fechados.
Entre as árvores, notei um movimento. O vento frio da noite farfalhava o verde da floresta numa sinfonia tranquilizadora, apesar de tudo. Talvez não fosse de todo ruim morrer aqui. Segurei a mão de Teresa, considerando um último suspiro de esperança que seria nos jogarmos no rio, mesmo com o frio de rachar os dentes tirando quase toda a minha coragem e esperança de pular e sobreviver.
Os encapuzados apareceram por entre as árvores e um deles deu um passo à frente. Pelo que pude contar, eram no mínimo cinco, todos com os rostos cobertos pelos capuzes, assim como Teresa quando a encontrei.
            ‒ Entregue a garota - uma voz grossa ordenou. Presumi que fosse o líder do grupo. - Antes que você se machuque.
Me levantei, ficando à frente do corpo da menina com pele de chocolate e olhos de lua.  Eles poderiam me matar, mas eu não deixaria Teresa ser levada de mão beijada. Eu podia não confiar nela, e ela até podia quase ter me matado de susto, mas ela tinha me salvado quando eles nos atacaram… e agora eu faria o mesmo. Não importava se custaria a minha vida.
            ‒ Não! - bradei. - Quem são vocês e o que querem com ela?
            ‒ Garoto… - o líder rugiu baixinho, parecendo controlar a raiva. Senti algo segurando meu pé, e, ao olhar para baixo, encontrei a mão de Teresa envolvendo meu tornozelo. E seus olhos. Opacos, mas ainda querendo lutar. Ela se apoiou em mim para se levantar, ainda um pouco tonta, quase me fazendo cair. Depois, se segurou na minha cintura para manter o equilíbrio.
            ‒ Teresa - ele falou apaticamente. - Pensou que escaparia de nós?
            Sem dar a Teresa qualquer chance de responder, o líder estendeu a mão, cuja palma começou a brilhar e tremeluzir soando como raios. Trinquei o maxilar, segurando mais forte a mão de Teresa como se o toque pudesse me trazer forças.
            Quando o homem começou a abrir a boca, o mundo à minha volta pareceu desacelerar, exceto por mim. A magia do homem saía aos poucos de sua mão, ainda muito distante de mim e Teresa. Pisquei, não acreditando que aquilo era real. Olhei fixamente para a magia progredindo minimamente e comecei a rir histericamente… até que algo me chamou a atenção. Na verdade, foi como se uma força me puxasse para o rio. E foi onde a encontrei.
            Uma criatura caminhava sobre as águas. Não, não era uma simples criatura, era o mais belo cavalo que eu já vira em toda a minha vida. Ou era para ser, porque a pele de seu corpo era constituída de escamas hexagonais brancas; as linhas de encontro destas, prateadas, deixando a criatura ainda mais majestosa. No lugar de patas havia garras; o pelo do rabo, liso e branco. Ao redor de seu pescoço, uma linda juba de pelos brancos e brilhantes. Mas o que mais me chamou a atenção foi seu rosto: olhos azuis brilhantes, que o deixava ao mesmo tempo mais bonito e assustador; escamas com o mesmo padrão hexagonal do corpo cobriam toda sua face; e um par de chifres de marfim ornamentava sua cabeça.
            Ele me prendia numa espécie de hipnose. Altivo e confiante, ele me olhava nos olhos.
            Pule.
            Olhei para os céus, tentando entender de onde vinha aquela voz.
            Pule.
            Não era possível…
            Mirei de olhos arregalados a criatura, meu peito quase explodindo num misto de medo e excitação. Ela abaixou a cabeça para mim e em seguida a levantou, parecendo fixar ainda mais seu olhar em mim, caso isso fosse possível.
            Pule.
            Segurei com força a mão de Teresa, arrastando-a comigo enquanto engolia em seco e pulava no rio, o mundo voltando à sua velocidade normal, a magia atingindo o vazio onde antes estávamos, e nossos corpos sendo carregados pela feroz correnteza para longe do grupo de encapuzados.

***

            ‒ Teresa. Teresa, acorde - ouvi ao longe alguém me chamar.
            Abri os olhos, uma forte luz incindindo sobre eles. Demorei alguns segundos até me acostumar com a súbita claridade. Após alguns bocejos e tapinhas no rosto, percebi que estava no meu quarto em Pavlopetri. Serena, minha irmã mais velha, estava diante de mim, sentada na borda da minha cama. Vislumbrei seus longos cabelos negros caindo sobre os ombros, a pele escura e seu lindo rosto, que me encarava como se eu tivesse feito alguma travessura.
            ‒ Juro que não fiz nada - balbuciei, voltando ao encontro do meu travesseiro de penas de ganso.
            Serena beliscou minha perna, obrigando-me a virar em sua direção. Por um momento, seu olhar transpareceu uma profunda raiva, seus belos olhos dourados perfurando minha alma, e percebi que o sentimento era muito mais forte. Só não sabia nomeá-lo. Ultimamente este olhar tinha se tornado frequente e sempre era eu quem estava em sua mira. Mas ele tão logo se esvaía, e ela voltava a ser minha querida irmã.
            ‒ Mamãe está te chamando. Ela deseja falar com você - disse com ar preocupado.
            ‒ Aconteceu alguma coisa? - perguntei alarmada, já saindo da cama.
            ‒ Ela teve uma visão.
            Parei o movimento de colocar meu sapato por alguns segundos, digerindo a informação. Por fim, agradeci minha irmã e saí em disparada pelos corredores do palácio. Pavlopetri é cercada por uma extensa muralha, que fora construída durante o Grande Expurgo e que nos separa de Vaalbara. No centro do país ergue-se o palácio real, construído a partir de pedras enfeitiçadas, que mantém sua aparência conservada, e ao redor deste encontram-se as cidades, onde a matéria-prima de tudo é a magia. É a partir dela que os campos são cultivados, animais são criados, as armas e armaduras são fabricadas, e até mesmo doenças são curadas. A maioria das ações, contudo, demoram um pouco mais que as realizadas pelos humanos.
            Pavlopetri era como um exílio; nenhum de nós podia sair de lá… o que só me dava mais vontade de fazê-lo. A existência de nosso povo era oculta por um feitiço sustentado pelo regente do reino, conhecido como Primum Pythonissam, o ser mágico mais poderoso - que por acaso era minha mãe, Sasha.
            Conforme desci as escadas, percebi a intensa movimentação dos soldados da guarda de magos da regente, conhecidos como Satelliti - mestres em diferentes artes mágicas. Todos tinham o cenho franzido, alguns andando incessantemente de um lado para o outro, parecendo verdadeiramente preocupados, fazendo com que eu me apressasse ainda mais.
            Chegando à porta, a dama de companhia, Dana, me levou até onde minha mãe estava e prontamente saiu do quarto, deixando-nos sozinhas. Ela estava sentada em uma cadeira adornada com pedras preciosas; as mãos, repousadas sobre o colo, uma em cima da outra. Sua postura era serena, mas o semblante demonstrava o completo oposto, mesmo que ela tentasse esconder.
            Ela ainda não parecia ter notado minha chegada, de modo que olhava para frente como se presa em outra dimensão.
            ‒ Mãe - minha voz saiu sussurrada. Ela por fim olhou para mim e sorriu brevemente, pedindo que me aproximasse e estendendo a mão para mim. Devolvi o sorriso conforme a observava. Vestia seu traje de batalha: um vestido azul longo, composto por um peitoral de ouro branco adornado com safiras e braceletes do mesmo material. Ao seu lado, recostado na lareira, estava o báculo dourado com quatro pedras preciosas em linha reta, cada uma representando os elementos: água marinha para a água; ametista para o ar; rubi para o fogo; e esmeralda para a terra. Só ela tinha o poder necessário para usá-lo.
            ‒ Teresa… Minha querida Teresa - sua voz soava forte, mas senti uma pontada de tristeza nela, o que me amedrontou ainda mais. - Creio que sua irmã já lhe contou que tive uma visão. O que também não é difícil de se adivinhar vendo a postura de meus guerreiros - ela adicionou, rindo.
            ‒ Algo grande está prestes a acontecer, filha, e não serei eu quem terá papel ativo nesta jornada. Cabe a você a concretização ou não desta profecia. - Seus olhos dourados encontraram os meus, mais sérios que nunca antes. - Você deve atravessar a muralha.
            ‒ Ninguém pod… - comecei a falar, confusa, mas logo fui interrompida.
            ‒ Teresa, estamos prestes a ser atacados e você é nossa única esperança. Não somente nós, como toda Vaalbara se afogará em guerras. Você deve ir a Albus e nada pode interromper o seu caminho, senão será tarde demais. O exército de Aurea atacará este reino e é seu dever encontrar um jovem menino de cabelos cor de sangue chamado Belsazar e seu irmão, Merodac. Mas precisa ser rápida, filha, pois a vida de Merodac corre perigo.
            ‒ Mas, mãe, eu não faço ideia de como chegar a Albus - falei, desesperada, não gostando do rumo daquela conversa. - Como quer que eu encontre esses meninos se nem ao menos sei como chegar ao meu destino?
            ‒ Tenho um mapa, Teresa, onde todo seu caminho está traçado. Vista aquele manto - ordenou. Apontou para a peça do outro lado do quarto. Corri até lá, vesti-o e voltei para perto dela. - O mapa está no bolso interno.
            Vendo minha expressão assustada, ela afagou meu rosto e me puxou para um abraço apertado. Depois, beijou minha bochecha com força.
            ‒ Não se preocupe, querida, tenho fé em você. Acredito em você mais do que possa imaginar, e sei que encontrará os dois irmãos.
            Nós duas sorrimos com as mãos entrelaçadas, mas de repente os órbitas de seus olhos viraram e ficaram completamente brancos. Fugi de seu toque, afastando-me com medo.
            ‒ Sangue inocente será derramado, dando início à guerra mais violenta que o mundo já presenciou - ela proferiu com voz grave, parecendo de outra pessoa. - Uma criança nascida da nobreza montará a cri...
            Uma explosão fez todo o palácio tremer, jogando os móveis ao chão e nós também. Bati a cabeça na cabeceira da cama, deixando-me zonza. Minha mãe estava deitada no chão, de olhos fechados. Engatinhei até ela, sacudindo-a levemente. Ela abriu os olhos, tomando fôlego como se tivesse se afogado.
            ‒ Não temos mais tempo - a frase saiu como um suspiro, sua voz meio grave, meio fina, como se ela ainda estivesse presa na profecia.
            Minha mãe se levantou rapidamente e segurou o corvo esculpido na parte de cima da lareira, abrindo suas asas. Após alguns estalos - quase imperceptíveis em meio à sinfonia de gritos desesperados de todos os pavlopetrianos - uma passagem tornou-se visível.
            ‒ Não olhe para trás nem confie em ninguém do castelo - ela continuou empurrando-me para a passagem contra a minha vontade. - Siga o túnel e sairá no jardim dos fundos. De lá será relativamente fácil alcançar as muralhas. Regulus está de volta e quer vingança. Conseguiu apoio e agora está em busca do trono novamente… só que dessa vez terá sucesso - ela dizia mais para si mesma do que para mim, que nada conseguia entender.
            ‒ Mãe, e você? Não posso fugir sem você e Serena! Nós temos que encontrá-la.
            ‒ Não há outro jeito, minha filha. Está escrito há anos, antes mesmo de eu me tornar o Oráculo. Sua avó, Euryale, previu que quando eu lhe contasse uma profecia este seria meu último ato como rainha.
            Engoli em seco, assimilando o significado de suas palavras. Eu me recusava a acreditar naquilo. Não poderia acabar assim tão fácil.
            ‒ Mamãe… - choraminguei, agarrando-me a ela, que se ajoelhou à minha frente. Afundei meu rosto em seu pescoço, guardando seu cheiro em minha mente.
            Do lado de fora, várias ordens eram dadas, junto a gritos de dor. Em alguns momentos nos alcançariam. Minha mãe olhou para a porta com urgência, abraçando-me com tanta força que achei que meus ossos iriam quebrar.
            ‒ Isso é um adeus, Teresa - balbuciou com voz fraca. Afastou-se de mim e tirou seu cordão de ouro, colocando-o em meu pescoço.
            O coração do oráculo.
            ‒ Eu e Serena lutaremos junto à Satelliti - assegurou, segurando meu rosto e dando vários beijinhos nele, seus olhos tão marejados quanto os meus. - Não se preocupe com sua irmã nem comigo, só siga em frente.
            Assenti, esfregando os olhos com ferocidade.
            ‒ Eu te amo - disse enquanto me empurrava para dentro da passagem, rapidamente a fechando minutos antes de explosão eclodir e um urro ser ouvido. Tapei a boca, mordendo minha mão para não gritar. O túnel tremia incessantemente, jogando-me de um lado ao outro. Aproximei-me da entrada da passagem e senti o calor que emanava dela. Com certeza o estrondo viera de lá, o que significava que minha mãe…
            Comecei a correr pateticamente, as lágrimas descendo como cascatas pelas minhas bochechas e o chão aos meus pés tremendo de tempos em tempos. Eu era uma inútil, não entendia como minha mãe tinha visto que eu poderia salvar alguém.
            Apalpei meu manto, sentindo o mapa em meu bolso, e envolvi com força o medalhão de minha mãe. Não havia tempo para auto piedade. Sem minha mãe e minha irmã, só restava a mim e eu precisava concretizar a profecia. O destino de todos dependia disso.

            Um longo tempo depois, desemboquei no jardim, ofegante e com o nariz escorrendo, levando um susto com a situação do lado de fora. O jardim não existia mais, as casas estavam destruídas, resumidas a crateras; pessoas corriam sem rumo, algumas em chamas. Era o quadro do perfeito caos. Além da destruição, avistei as muralhas. Finalmente realizaria meu desejo, uma pena que as condições não era as melhores.

2 comentários :

  1. AAAHAHHHH NÃO ACREDITO! CHEGUEI MUITO ATRASADA NÉ?! DESCULPAAAAAAAAAA! Vou te explicar a história, eu postei um comentário, mas a bagaça não foi e então eu simplesmente esqueci de postar outro comentário! POR FAVORZINHO! ME FAÇA FELIZ E POSTO O OUTRO CAPÍTULO! Escuta meu pedido ou vou aí puxar seu pé durante a noite, viu? KISSES!

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    Respostas
    1. HAHAHAHAHA' se eu te contar que eu já mudei taaanta coisa, você acredita? Adicionei mais história no início, acho que você vai gostar. Estou pensando em começar a publicar pelo Wattpad, já que não tenho mais tempo de atualizar o blog, mas tenho medo de não ter visualuzação haha
      Senti falta do seu comentário! Haha
      Beijoos!

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