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26 maio 2016

O Príncipe Herdeiro - Capítulo 5

Meu instinto foi dar meia volta e correr. Não sabia o motivo, mas não discutiria. Pela expressão que meu irmão estampava, seria capaz de me cortar em pedacinhos. Os corredores estavam suspeitamente vazios, sem nenhum sinal dos guardas, fazendo-me perguntar onde diabos estariam.
Senti uma pressão forte em meu couro cabeludo, que foi puxado para trás, os fios emaranhados nos dedos de Minus. Gritei de dor, sentindo a queimação em minha cabeça. Lutar contra ele parecia inútil, sua força muito maior que a minha.
‒ Aonde pensa que vai? - ele rosnou ao pé do meu ouvido. - Não fuja de mim, irmãzinha.
‒ Me solte! - bradei o mais alto que pude, esperando que algum guarda que estivesse perambulando pelo corredor pudesse me ouvir.
Minus riu. Um som seco e engasgado que me deu arrepios.
‒ Grite o quanto quiser, ninguém virá te ajudar - falou como se lesse meus pensamentos. - Todos os guardas nesta área foram dispensados… por minha ordem. Somos só eu e você, Rose.
Ele me atirou no chão, fazendo-me bater a cabeça com força. Na queda acabei mordendo minha língua, que agora sangrava. Meus longos fios loiros cobriam minha visão, caídos pelo meu rosto. Joguei-os para trás e olhei desafiadoramente para meu irmão, o que pareceu irritá-lo. Cuspi o sangue que se acumulara em minha boca em seus pés, sorrindo em seguida.
‒ Sinta-se à vontade para terminar o que começou - falei, surpreendentemente serena.
Minus deu um meio sorriso.
‒ Acha que vou te matar? - Ele se ajoelhou à minha frente, segurando meu queixo com força e me obrigando a encará-lo. Os olhos transmitiam falsa inocência. - Por que faria isso, Rosette?
Engoli em seco, recusando-me a respondê-lo. O tapa veio rápido e não me permitiu qualquer reação, a marca dos dedos dele vermelha em minha bochecha.
‒ Eu fiz uma pergunta.
Sem resposta. Outro tapa, dessa vez na outra metade do rosto.
‒ Porque eu estava treinando - desembuchei, logo prendendo o ar em meus pulmões para não chorar na frente dele. Meu rosto ardia de vergonha e dor. Não sabia aonde ele queria chegar.
‒ E você sabe que é proibido, não sabe? - Fiz que sim. - Então, por que fez mesmo assim?
Eu me odiava por estar naquela posição, submissa a ele, mas precisava responder às suas perguntas retóricas idiotas enquanto não encontrasse o timing perfeito para atacá-lo e sair correndo.
Contrariando meu bom senso, respondi com dose moderada de sarcasmo:
‒ Porque nosso povo é governado por um bando de homens acéfalos e covardes que temem uma mulher com uma espada em punho.
Mais uma bofetada, dessa vez um pouco mais forte. “Talvez eu tenha merecido essa”, pensei, sorrindo por dentro triunfantemente.
Minus tinha um olhar apático, como se encarasse uma parede branca. Algo dentro dele estava errado e a qualquer momento entraria em erupção. Eu precisava ser rápida e escapar dele o quanto antes possível.
Escapar? Para onde? Para os braços de seu querido pai que te odeia tanto quanto seu irmão?
Qualquer lugar seria melhor do que aqui.
Concentrei minhas forças na perna direita e a impulsionei contra o estômago de Minus, que pouco esperava de mim e foi atingido sem aviso. Ele foi atirado para trás, caindo de barriga para cima à procura de ar. Levantei-me rapidamente e comecei a correr, passando pelos corredores anormalmente vazios. Pensei em gritar, mas seria inútil e ajudaria Minus a me encontrar.
Decidi tomar novamente o caminho até o Salão Real e tentar a sorte ao pedir ajuda aos guardas. A cem metros do meu destino, já no corredor principal, olhei rapidamente para trás a fim de saber se meu irmão ainda estava atrás de mim. Senti meu coração desacelerar um batimento ao constatar que não, mas, ao girar a cabeça para frente, meu corpo se chocou com outro e caí com tudo no chão.
Arisca, já estava preparada para acertar outro chute na pessoa que atrapalhara meu caminho. Contudo, ao invés de encontrar um inimigo, meus olhos encontraram os de Saphira. Ela esfregava a cabeça com uma expressão divertida no rosto.
Olhei por sobre o ombro e imediatamente depois agarrei a mão da minha amiga e tornei a correr.
‒ Ai! - ela reclamou, acompanhando-me desajeitadamente. - Pode me explicar, por favor, o que está acontecendo aqui? Ah, e um pedido de desculpas não seria nada mal também.
‒ Agora não, Saphira!
Meu tom desesperado não deixou de ser notado, fazendo-a parar bruscamente e quase me jogar no chão. Tentei puxá-la para seguirmos em frente, mas Saphira era pelo menos cinco quilos mais pesada que eu, tendo então vantagem neste duelo.
‒ Nós precisamos ir - quase choraminguei, não desistindo de puxá-la com força.
‒ O que você precisa é se acalmar e me contar o que está acontecendo. Está parecendo uma louca!
‒ É porque estou quase me tornando uma - balbuciei, a todo momento olhando por sobre o ombro de Saphira para me certificar de que Minus não estava perto de nós. Trinquei o maxilar e respirei fundo, olhando de modo suplicante para minha melhor amiga. - Eu juro que contarei tudo, mas agora precisamos correr ou nenhuma de nós duas estará viva para continuar a história.
Isso pareceu convencê-la.
Chegamos ao esconderijo num percurso estranhamente tranquilo. Não tínhamos encontrado nenhum guarda. Fechei a porta atrás de mim, pressionando-a com as minhas costas. Escorrei pela madeira gasta até sentar no chão, exasperada. Ergui os joelhos até a altura do peito para servirem de apoios aos meus cotovelos. Então, enterrei o rosto em minhas mãos, tomando fôlego e tentando organizar na cabeça os acontecimentos de poucos minutos antes.
Saphira ficou em silêncio por um tempo, analisando a cena, mas não se aguentou por muito tempo.
‒ Tudo bem, então o que aconteceu? Por que diabos você está toda suada e - ela viu algo na gola do meu agasalho, fazendo-a arregalar os olhos - está suja de sangue?
Descobri o rosto e tirei aquela lareira portátil, atirando-a no chão e então vendo a pequena, mas notável, mancha de sangue. Senti o gosto de ferro em minha boca e engoli com dificuldade. Minha língua latejava.
‒ Minus apareceu e acho que quer me matar.
O queixo de Saphira caiu, as sobrancelhas quase unidas.
‒ Como é? Explique isso direito, garota! - ordenou, sentando-se à minha frente.
Respirei fundo, repassando os eventos em minhas cabeça antes de abrir a boca.
‒ Eu tinha decido que contaria ao meu pai o que tinha acontecido, sobre as marcas no meu corpo, então fui até o Salão Real. Os guardas não me deixaram entrar e eu conseguia ouvir de fora a gritaria do meu pai, então fui mesmo assim descobrir o que estava acontecendo. - Parei por um segundo para a dor na minha língua amenizar. - Ele estava falando com Minus e os dois pareciam bem irritados, no meio de uma discussão. Meu pai deixou meu irmão sozinho no salão e, não sei, eu achei que ele tivesse me visto.
‒ Onde você estava? - ela me interrompeu.
‒ Equilibrada entre duas paredes, observando tudo pelo vitral.
‒ O quê?! - ela gritou. Contive o impulso de tapar o ouvido.
‒ Longa história. Mas enfim… Fiquei desesperada e saí dali. Ia para o meu quarto, mas assim que estava passando pelo Salão dei de cara com ele. Eu senti que algo estava fora do comum, mas continuei andando… até que o encontrei no meio do caminho. - Fiz uma pausa. - Eu juro, Saphira, nunca vi alguém com um olhar igual ao dele. Era como se mesmo à distância eu sentisse as mãos dele apertando a minha garganta.
Saphira engoliu em seco, encarando-me  com um misto de expectativa e medo.
‒ Ele me atacou, mas eu consegui escapar - completei. - Eu estava fugindo dele quando te encontrei.
‒ Correção: quando me atropelou.
‒ Tanto faz - abanei a mão, fazendo pouco caso do seu comentário. - É uma questão de ponto de vista.
‒ Mas… o que você vai fazer? Digo, não é como se Minus fosse parar de querer te matar num piscar de olhos. Aquele garoto pode ter sérios distúrbios de personalidade, mas não acho que serão favoráveis a você neste momento.
‒ Vou fugir - declarei.
‒ Para onde? - ela quis saber, descrente. - Você nunca deu um passo fora deste castelo, sua filhinha de papai.
Se as palavras tivessem sido ditas por qualquer outra pessoa, eu sentiria vontade de pular em sua garganta. Mas sendo Saphira, não consegui segurar o riso. Era muito bom poder contar com ela em um momento tão sombrio.
‒ Posso ser uma filhinha de papai, mas não sou uma completa inútil. Um mapa comprado no mercado de um vilarejo qualquer resolverá o meu problema.
‒ Hum, tudo bem, digamos que você tenha essa capacidade. Acha que ninguém sentirá a sua falta? Um grupo de busca será enviado atrás de você, e quando Jarn voltar, o exército inteiro de Lorem Bellatores.
Bufei, revirando os olhos.
‒ Obrigada pelo apoio.
Ela ergueu os braços como se rendesse.
‒ Ei, eu estou do seu lado. Tanto que não quero que seja morta e estou disposta a fugir com você.
‒ Não - falei, balançando a cabeça com veemência. - Você não se tornará uma fugitiva por minha causa.
‒ Como se minha vida aqui fosse maravilhosa e eu fosse perder todos os meus benefícios - ironizou.
‒ Não posso fazer isso com você - teimei.
‒ Querida, você não está me obrigando a nada. Estou fazendo uma decisão por livre e espontânea vontade pela primeira vez na minha vida. - Senti um bolo se formar na minha garganta. - Sinceramente, você estaria me livrando de um peso. E, vamos combinar, a vida de fugitiva não soa tão ruim quanto a que levo aqui.
Fiquei calada, examinando seu rosto, que estava inegavelmente decidido e sério. Balancei a cabeça, resmungando e já me arrependendo de arrastá-la comigo.
‒ Tudo bem - disse por fim. Saphira abriu um sorriso triunfante. ‒ Então, como vamos dar o fora daqui?
Ela piscou para mim, confiante.

‒ Tenho algo em mente.

2 comentários :

  1. UHUUUULL! Obrigada de coração, Gabi! Why the hell você não mandou pra uma diretora ainda?! Faria muito sucesso, prometo! Kisses!

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    Respostas
    1. Haha obrigada, Lu! Ainda não terminei de escrever, faltam algumas centenas de páginas haha O plano é enviar, mas ainda faaaalta....

      Beijos!

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