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18 maio 2016

O Príncipe Herdeiro - Capítulo 4

‒ Acordei em um canto fedido e escuro. Não conseguia enxergar um palmo à minha frente - falei, sentindo as lágrimas descendo por minhas bochechas. Saphira expressava um misto de horror e empatia. - Ainda não faço ideia de que lugar era aquele, mas me lembro muito bem do barulho.
‒ Barulho?
‒ Sim… de gotas. Malditas gotas incessantes, que vinham de algum lugar não muito longe. Elas ecoavam pelo local e ressoavam nos meus ouvidos. - Esfreguei o rosto com força, tentando afastar aquela sensação. - Foi horrível, Saphira. Eu… eu só conseguia pensar nelas e naquele maldito som que faziam. Não tenho ideia de quanto tempo fiquei ali, mas meu corpo inteiro doía. Era como se agulhas estivessem perfurando minhas pernas, costas... Meu corpo inteiro! E as gotas… Eu achei que estivesse enlouquecendo! - Solucei, sentindo toda a dor daquele dia retornar. Saphira me abraçou forte e acariciou meus cabelos. Não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que estava chorando.
‒ Em algum momento, acho que desmaiei - continuei após alguns segundos tomando fôlego. - Quando acordei, estava sozinha no meu quarto. Foi tudo como um grande sonho… Se eu não estivesse com as marcas, seria nisso que pensaria.
Saphira se afastou e levantou a bainha do meu vestindo, encontrando um hematoma, já amarelado e verde, em minha panturrilha. Um dos muitos por todo o meu corpo. Levou as mãos à boca, perplexa.
‒ Minus fez isso com você? - perguntou ainda descrente.
Envolvi meu corpo com os braços, protegendo-me. Eu ainda não entendia o que tinha acontecido e não queria acreditar que meu irmão tinha sido capaz de me machucar, ainda mais dessa maneira… mas, se não ele, então quem? Foi ele quem me encontrou no jardim, quem atirou a adaga na minha direção e me atacou. Eu tinha ficado inconsciente, mas só havia ele comigo.
‒ Por que ele faria isso, Rose?
Balancei a cabeça, sem ter uma resposta para a pergunta.
‒ Eu sei que ele sempre me odiou. Desde pequena.
‒ Por que diz isso?
‒ Por quê? - Ri sem achar graça. - Porque nossa mãe morreu por minha culpa! Ele e meu pai… por mais que queiram esconder, eu simplesmente sei. Sei que eles preferiam que eu tivesse morrido, se isso permitisse que minha mãe continuasse viva. Talvez eles estejam certos - funguei. - Talvez fosse melhor se eu tivesse morrido ao invés dela.
O tapa de Saphira ecoou na sala vazia. Minha bochecha queimava, mas eu estava abalada demais para sentir a dor. Levei a mão ao rosto, sentindo a pele quente.
Saphira estava chorando.
Nunca diga isso de novo, ouviu? Você pode pensar o que quiser, mas nunca diga isso. Sua mãe morreu no seu parto, mas você não pode se culpar por isso. Você era um bebê, pelo amor de Deus! Além disso, qualquer mãe ficaria feliz em ver sua filha viva, mesmo que custasse a sua. Tenho certeza que ela te amou, então não pense nem por um segundo que seria melhor estar morta, ouviu?
Assenti silenciosamente, envergonhada. Quando se acalmou, Saphira me abraçou forte de novo, pedindo desculpas por ter explodido daquela maneira.
‒ Eu que peço - falei. - Obrigada por sempre estar ao meu lado, Saphira. Eu não poderia pedir por uma irmã melhor.
Ela secou as lágrimas com as costas da mão e sorriu para mim.
‒ Estarei sempre aqui, Rose. Pode contar comigo.


Acordei na minha cama, o que era engraçado porque não me lembrava de como chegara lá. O quarto estava vazio, sem nenhum sinal de Lucy, minha dama de companhia. Devia estar tirando uma soneca ou então tinha por fim morrido. Das duas, uma.
Do lado de fora, pássaros cantavam. A luminosidade que adentrava meu quarto me dizia que um novo dia começara; eu tinha dormido por tempo demais. Levantei e andei com pés descalços até o lavatório, minha camisola, que antes fora da minha mãe, sendo arrastada pelo chão por ser grande demais para mim. Lavei o rosto, dando uns beliscões na bochecha para fazer o sangue circular, e voltei para o quarto. Fui até a porta e a abri, andando no corredor à procura de um guarda e em seguida pedindo-o para encontrar Lucy e dizer a ela que eu precisava de água quente. Apesar de ser verão, os dias em Aurea ainda eram frios. Para ser sincera, desde que nasci, nunca realmente vivenciei a estação, seu calor e suas chuvas fortes e passageiras. Em Aurea sempre parecíamos estar no frio constante, alguns dias mais amenos que outros.
Vinte minutos mais tarde, Lucy entrou esbaforida no quarto, pedindo desculpas incessantemente. Desconsiderei seu perdão, dizendo que não havia necessidade. Por várias vezes os criados confundiam o comportamento do meu pai e irmão com o meu, o que me irritava demais. Eles viviam pedindo desculpa como se eu fosse maltratá-los por demorarem o tempo necessário para realizar uma ação, como esquentar a água, por exemplo. Talvez meu pai e irmão fossem capazes disso, mas eu não. E essa desconfiança e medo constante me deixavam inquieta.
‒ Não precisa se preocupar, Lucy - disse com um sorriso breve.
‒ Mil perdões, senhorita. Não deveria ter saído do seu lado.
‒ Chega de bobagens - pedi. - Alguma coisa deve ter acontecido, suponho.
Lucy fez que sim, timidamente.
‒ Precisava tomar um chá de ervas. Acho que estou começando a adoecer.
‒ Então descanse pelo resto do dia.
‒ Mas e a senhorita? - ela perguntou espantada, com olhos descrentes.
Não me aguentei vendo sua expressão e precisei gargalhar.
‒ Realmente acha que sou tão inútil ao ponto de não saber preparar um banho, Lucy?
Ela se encolheu por causa da brincadeira.
‒ N-Não, senhorita. Eu… Eu não…
‒ Esqueça - cortei seu gaguejo, cansada. Fora Saphira, nenhum criado ou guerreiro entrava nas minhas brincadeiras. Tinham medo de mim, o que era bem cansativo.
Apontei para a tigela de água quente, tomando-a das mãos de Lucy, que ainda tentou resistir. Coloquei-a no chão acarpetado do quarto e dei empurrõezinhos nas costas de Lucy para que ela saísse de lá. Antes de fechar a porta e ficar sozinha, precisei assegurá-la dezenas de vezes que nenhum mal aconteceria. Velha insistente.
Uma vez sozinha, preparei meu banho e me despi. O espelho de corpo inteiro estava logo à frente, expondo as marcas de uma semana atrás. Precisei desviar o olhar das manchas amareladas e verdes e das pequenas crateras na parte de trás das minhas cochas, panturrilhas, nádegas, braços e costas. Cada ponto estava tão dolorido quanto o outro. Entrando na água, senti os músculos relaxarem. Um alívio.
Não sabia quanto tempo tinha passado na banheira, mas ao sair meu corpo inteiro estava enrugado como o de uma velha. Escolhi um dos vestidos de uma enorme pilha e, para me proteger do vento frio, peguei um agasalho de lã. Então saí.
Durante toda a semana, fiquei pensando sobre o que acontecera e se deveria contar para o meu pai. Precisava decidir se contaria a história completa ou se omitiria o fato de estar no Jardim Real treinando com uma adaga, o que com certeza o faria esquecer de todo o resto e focar no fato de que deveria me castigar. Como se eu já não tivesse tido o bastante...  
Assim, eu tinha dois problemas. O primeiro deles era acusar meu irmão de me torturar, o que não era nada fácil apesar de Minus ter se tornado um cretino de nariz empinado e prepotente. Além disso, meu pai dificilmente castigaria o sucessor do trono. Segundo, se eu acusasse Minus e omitisse o treinamento, sairia como mentirosa, pois meu irmão contaria a versão dele e muito provavelmente meu pai ficaria do seu lado… o que não seria totalmente injusto, já que eu estaria mentindo.
Maldita indecisão!
Tudo bem que eu não deveria estar treinando, mas isso não o dava o direito de me torturar! Que tipo de pessoa ele era, capaz de tratar a irmã como um animal a ser devorado simplesmente por não seguir “a ordem das castas”? Fodam-se as ordens, eu era livre! Quer dizer, pelo menos era isso que diziam.
Caminhei pelos corredores acarpetados, as paredes de pedra frias como minha companhia no caminho até o Salão Real. Tinha tomado minha decisão: contaria tudo a meu pai. Por mais severo que fosse, ele não deixaria o que Minus fez a mim passar em branco… Pelo menos era isso que eu esperava.
Conforme me aproximava da entrada leste do grande Salão guardada por dois Lorem Bellatores, pude ouvir o tom severo de meu pai. Não sabia com quem estava falando, mas não parecia nada bom. Fui em direção às portas, mas os guardas formaram um X com as lanças que seguravam, impedindo minha passagem. Olhei feio para eles, que continuaram mirando a parede à sua frente, na qual havia o brasão de Aurea, uma águia negra com as asas abertas em um fundo dourado.
‒ Perdão, senhorita, mas não pode entrar - um deles falou.
‒ Por que não? Preciso falar com meu pai.
‒ Ele está ocupado, agora. Volte mais tarde.
Franzi o cenho, virando de costas para eles e refazendo meu caminho. Eles poderiam achar que eu desistiria, mas não seria assim tão fácil. Olhei por sobre o ombro para saber se não estavam me acompanhando com o olhar, e virei à esquerda, entrando em um dos corredores que eram passagem obrigatória dos servos do reino - meu pai não permitia que caminhassem pelo mesmo corredor que ele, uma vez que não queria esbarrar com “gente suja e medíocre”. O local era tão estreito que só uma pessoa podia passar por vez. No alto da parede encontravam-se diversos vitrais, formando um mosaico das montanhas e dos ventos que cercavam o reino. Era minha melhor chance de espiar o que acontecia do lado de dentro.
Examinei os cantos à procura de alguém, mas estava sozinha. Apoiei as costas e as mãos em uma parede e os pés na outra. Depois, comecei meu caminho até o topo, impulsionando meu corpo. Esperava não cair no meio do caminho, pois era um pé direito de pelo menos cinco metros. O esforço, junto com as roupas pesadas e quentes, fez com que gotículas de suor escorressem pela minha testa e debaixo de minhas axilas. Pensei em arranjar uma maneira de me livrar do casaco de lã, mas a tarefa seria muito desgastante e o barulho da peça atingindo o chão poderia alertar os outros da minha presença.
Faltando dois metros até meu destino, parei para descansar. Minhas pernas tremiam e eu temia que a qualquer momento elas parassem de funcionar e eu tivesse que enfrentar uma tremenda queda livre. Ouvi vozes e olhei com urgência para baixo. Uma fileira de servos começava a entrar no corredor, escoltada por dois guardas.
Prendi a respiração e gemi baixinho, rezando para que eles não percebessem que uma garota estava suspensa a mais de três metros do chão que nem uma macaca. Prendi a respiração sem nem perceber, só descobrindo que o fizera quando meu peito se esvaziou assim que a fila indiana desapareceu de vista. Sequei o suor no colarinho do casaco e continuei a escalada, precisando de mais alguns minutos para chegar ao topo.
Uma vez lá, parei para respirar... Então me veio a pergunta: como enxergaria alguma coisa naquela posição, praticamente na horizontal?
Urrei, querendo me jogar lá de cima e terminar o sofrimento. Mas não tinha coragem o suficiente. Correndo o risco de deslocar meus ombros, fiz todo o esforço possível para retesar meus braços e ter alguma visão do que estava acontecendo. Apesar de não conseguir ver meu pai, o empenho surtiu efeito. Mesmo à distância, pude reconhecer os longos cabelos loiros de meu irmão amarrados em um rabo de cavalo no topo da cabeça.
O que ele fazia ali? Será que estava me dedurando?
Não conseguia mais ouvir a conversa do lado de dentro, mas a atmosfera do local era bem palpável. Minus cerrou com força os punhos ao lado do corpo, num sinal claro de irritação. Sua boca abriu e fechou com voracidade e pude jurar ter visto uma veia de seu pescoço ressaltar. Devia estar bradando alguma ofensa.
Em um piscar de olhos encontrei meu pai de pé à sua frente. A mão direita pairava no ar e seu corpo cobria completamente minha visão de Minus. Ficaram um bom tempo como estátuas, então meu pai desviou dele e caminhou até as imensas e pesadas portas de madeira com detalhes em ouro, que foram abertas para sua saída.
Minus continuou onde estava, o rosto virado para a porta pela qual eu antes tentara entrar. O rosto estava vermelho, provavelmente por um tapa. Assim que as portas se fecharam, a boca dele tornou a abrir, mas demorou diversos segundos para ser fechada, em um berro repleto de ira.
Ele olhou para o alto do salão e por um segundo pensei que tivesse me avistado. Quase perdi minhas forças, mas tive tempo de me recuperar, então começando uma descida desesperada até o chão. Não sei como consegui chegar inteira, mas foi o que aconteceu. Voltei pelo mesmo corredor, cumprimentando os guardas com um meio sorriso. As portas se abriram e quase perdi o ar ao ver meu irmão sair de lá com um olhar louco.
Virei de costas e comecei minha fuga andando normalmente, para não chamar a atenção. Não sei por que estava fugindo, mas algo no olhar do meu irmão estava me dando medo. Muito, muito medo.
Repeti o percurso, caminhando até meu quarto. Os corredores pareciam cada vez mais silenciosos e, de alguma maneira, sombrios. Ouvi o som de passos ressoando nas paredes e olhei para trás, não encontrando ninguém. “Mais um pouco, Rosette. Falta só mais um pouco” repeti a mim mesma, tentando manter a calma.
Novamente o barulho, mas dessa vez decidi não olhar. À minha frente havia um cruzamento de corredores, o último antes do meu quarto. Suspirei aliviada e olhei para baixo, para minhas mãos que tremiam. Cerrei os punhos e assenti, tornando a olhar para frente.
Então parei abruptamente.
Lá estava ele, sorrindo de modo insano para mim, os olhos vermelhos por causa da cólera.

Minus.

4 comentários :

  1. Olha, por mim você pode postar sempre O Príncipe Herdeiro, que eu vou ficar muuuuito feliz! Muito muito muito muito muito muito bom! Com um toque de suspense você mata todo mundo! Vai fundo GIRL!

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    1. Haha seus comentários me dão ânimo para continuar escrevendo, Luisa! Muito obrigada! Toda semana tentarei postar um capítulo na quarta-feira.

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    2. Obrigada Gabi! Ao menos eu agrado alguém! Bom,já estou viciada no Príncipe Herdeiro e em todas as suas resenhas! Já viciei minha irmã num livro de uma resenha sua e já deixei minha mãe louquinha com as promoções dos livros! SOCORRO!

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    3. Hhahaha esse é o espírito! Obrigada de novo :D

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