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11 maio 2016

O Príncipe Herdeiro - Capítulo 3

Em Aurea, qualquer um que se prezasse sabia a arte da guerra; nosso povo era composto por exímios guerreiros. Homens, obviamente. A nós, mulheres, fora algumas raras exceções, cabiam os cargos de lavar as roupas e vender frutas e verduras no mercado. Ou, ainda, servindo de escravas para os senhores.
Como filha do rei, eu era apenas um adorno… Bem, pelo menos era isso que ele pensava.
Minhas tarefas diárias se resumiam a lições e mais lições de como me portar, visto minha posição social. Tolice. Meu lugar era no campo de batalha. De que adiantava ter um dom se não podia usá-lo? Eu com uma espada era mil vezes melhor que muitos dos Lorem Bellatores. Era tudo muito injusto.
Quando pequena, por volta dos seis anos de idade, aproveitava os treinamentos de meu irmão, Minus, com seu instrutor, Brius. Treinei durante cinco anos sob a tutela dele, que me ensinou tudo o que sei até hoje. Pelo menos duas vezes na semana, lutava contra meu irmão. Perdia, obviamente, porque ele sempre fora mais forte e tinha mais habilidade, uma vez que praticava há quatro anos a mais que eu.
Mas isso não durou para sempre. Três anos mais tarde, quando Brius trocou minha espada, pude criar meu próprio estilo de luta: duas espadas leves, possibilitando esquivas e ataques rápidos e precisos. A partir do momento em que me acostumei com as novas armas, consegui vencê-lo facilmente.

Prepotente desde pequeno, Minus me subestimava notoriamente. Não me considerava uma oponente à altura, o que, somado aos seus movimentos lentos, causou sua derrota. Eu era ágil, sempre encontrando um jeito de quebrar sua defesa, e ele não conseguia me acompanhar.
Agora, aos dezesseis anos, estava proibida de lutar. Quero dizer, eu podia lutar, contanto que ninguém me visse. Afinal, não era de bom tom uma moça da minha idade, prestes a receber propostas de casamento, viver se enroscando no chão e lutando com espadas. Era inaceitável.
Mas era o que estava fazendo.
Na parte leste do castelo havia uma sala inutilizada, escondida pelas sombras e pelas heras. Duvidava que alguém soubesse de sua existência - inclusive meu pai -, e por isso este era meu cantinho secreto. Seu interior era muito limitado, havendo espaço para ser no máximo um quarto de servos. As paredes eram gastas e cobertas de limo, com alguns rabiscos um tanto peculiares, fazendo-me questionar se alguém já morara ali anos antes.
Os equipamentos que usava eram todos "roubados". Minha amiga, Saphira - que por acaso era serva de meu pai -, havia coletado-os da sala de combate. Como esta era abarrotada, duvidava que fossem sentir alguma falta. Eram apenas duas espadas, um boneco para treinamento e uma besta.
Saphira era uma das poucas pessoas, senão a única, em quem confiava. Ela havia sido trazida para cá quando ainda era pequena, aos oito anos de idade, para servir ao reino. Foi quando nos conhecemos. Os serviçais costumavam marchar até as docas com os pés e as mãos acorrentados, suas algemas ligando-se umas às outras, obrigando-os a andarem em sintonia. Eu estava correndo pelas escadas em minha euforia de quatro anos de idade, até que dei de cara com ela e precisei parar imediatamente.
Seu rosto, tão sujo quanto suas roupas, me chamaram a atenção. Mas o que realmente me fez congelar foram seus olhos; era como se me pedissem socorro silenciosamente. Não tinham brilho, carregados de dor. Ela era a última de uma fila de pelo menos cinco, se é que me lembro direito. Um dos soldados de meu pai estava atrás dela e a empurrou com o punho da espada quando ela não continuou andando porque olhava para mim. Indignada, decidi segui-los sorrateiramente, tentando saber até onde eram levados.
Uma vez descoberto o caminho para as docas, que eram próximas ao calabouço logo abaixo do castelo, passei a visitá-la constantemente após um longo período de estudo do terreno. Decorei o horário em que os guardas trocavam de turno, notando que durante cinco minutos a entrada ficava desprotegida - os servos eram trancafiados em uma sala minúscula, fui descobrir mais tarde.
Passei a trazer pedaços de pão, e um pouco de leite à noite. Ela não confiava muito em mim nos primeiros anos, e nunca a culpei por isso. Contudo, uma vez que ganhamos intimidade, nos tornamos inseparáveis. Ela se tornou minha confidente, minha melhor amiga, e eu a dela.
Doze anos mais tarde, praticamente nada mudara para os escravos. Na verdade, piorara. A comida era escassa, os leitos permaneciam quase inexistentes e eles raramente tomavam banho e dormiam propriamente. Mas eu me recusava a permitir que isso acontecesse com ela.
Às escondidas, levava-a até meus aposentos para que tomasse um banho e se servisse das refeições que eu conseguia roubar da cozinha. Quando possível, Saphira descansava em minha cama por alguns minutos enquanto eu vigiava a porta, aproveitando o momento em que minha dama de companhia - uma mulher velha e à beira da morte - me deixava sozinha.
Era o mínimo que eu podia fazer por ela.
Três batidas, seguidas de outra. Era ela.
‒ Rose, já terminou por hoje? - perguntou ao entrar, fechando a porta atrás de si.
‒ Ainda falta treinar com a espada… Quer assistir?
Ela deu um sorriso iluminado, assentindo veemente. Saphira era uma das moças mais belas que já vira. Tinha vinte anos, e sua pele morena junto aos seus cabelos negros - característicos de Nigrum, seu país de origem - e olhos âmbar a proporcionavam uma beleza estonteante.
Nunca entendi o porquê dela gostar tanto de assistir aos meus treinamentos, mas nunca a questionei sobre isso. Talvez fosse seu modo de escapar da realidade. Quando ela se acomodou no canto da saleta, pus o boneco próximo a mim. Sem motivo aparente, sempre inciava os treinamentos com minha posição de combate, que criara ainda pequena: as duas espadas entrelaçadas na frente do peito. Em seguida, lançava-me na direção do boneco, desenhando os ataques com golpes rápidos, girando as espadas no ar. Não podia me dar ao luxo de destrui-lo, pois Saphira não podia correr o risco de ser pega toda vez que eu destroçasse um deles.
Vinte minutos mais tarde, com os braços doloridos e o corpo inteiro clamando por uma pausa, descansei. Infelizmente tinha me empolgado demais e acabei me desviando de meu objetivo. O boneco estava destruído, com areia saindo pelos cortes recém-feitos. Eu jurava que tinha tomado uma distância razoável.
Saphira estalou a língua, balançando a cabeça em repreensão.
‒ Por que se descontrolou dessa vez, hein? Sabe que não posso me dar ao luxo de invadir a sala de treinamento. Está muito enganada se pensa que conseguirei outro.
‒ Desculpe - murmurei. Minha cabeça doía por causa da torrente de pensamentos que me atormentavam desde a semana passada.
Saphira notou minha inquietação e se aproximou de mim, sentando-se à minha frente.
‒ O que houve? - perguntou com voz firme, mas visivelmente preocupada.
Desconversei, abanando a mão. Minha garganta doía devido ao bolo que se formara nela e eu não conseguia engolir. Saphira percebeu e, abraçando-me, repetiu a pergunta.
— O que houve, Rose?
— Minus… — balbuciei.
— O que tem ele?
Saí de seu abraço e a olhei nos olhos. Eu não podia continuar escondendo dela o que acontecera. Era uma espécie de poder que Saphira tinha sobre mim. Por mais que eu quisesse ficar calada e guardar segredo, seus olhos obrigavam as palavras a sair da minha boca. Ela era como a irmã mais velha que eu nunca tivera.
Contei tudo, começando pela manhã de uma semana atrás.
Pelo menos uma vez na semana, eu ia ao Jardim Real para treinar. Meu esconderijo começava a ficar fedido após alguns dias de confinamento, então eu precisava deixar uma fresta da porta aberta por pelo menos um dia, para o ar poder ser trocado. Obviamente, era muito mais perigoso treinar ao ar livre, mas na parte mais interna dele, que é cercado por árvores extensas de copa larga, eu conseguia encontrar certa segurança. Além disso, poucos eram os que iam ali. Minus me contou que nossa mãe costumava passar o dia lá, cuidando ela mesma do jardim, antes de morrer. Meu pai o mandara ser feito especialmente para ela, que era apaixonada por flores, motivo pelo qual fui batizada com meu nome.
Depois da morte dela, no meu parto, ninguém mais vinha aqui, a não ser os servos que eram designados para cuidar do jardim. Se não fosse pela memória de minha mãe, o lugar teria sido imediatamente destruído para abrigar mais escravos. Pelo menos meu pai tem o mínimo de escrúpulos. Apesar de ser um completo idiota, quando se tratava da minha mãe ele se transformava no completo oposto. Queria ter vivido durante esses bons tempos, como Minus me contava quando éramos pequenos.
Era somente mais um dia da minha infame vida. Estava relaxada porque, como sempre, acreditava que não encontraria ninguém além de Locks, um dos homens que cuidavam do Jardim Real. Ele sabia do meu pequeno segredo, mas nunca desconfiei que fosse contá-lo a alguém; o que, para ele, seria uma boa recompensa. Qualquer atividade indesejada que fosse relatada ao rei - seja dos servos, guerreiros ou integrantes da família real - era recompensada com nada menos que um saco com 100 moedas de ouro aureanas. O suficiente para os servos se alimentarem bem durante um ano.
Como precisava ser discreta, não podia levar meus equipamentos de combate comigo, só me restando uma adaga, que escondia em um buraco cavado perto das raízes da mais alta árvore. Esta era marcada com um X muito singelo na parte inferior, apenas para que eu pudesse identificá-la como a certa quando havia começado a treinar aqui. Agora, já sabia exatamente onde ela estava.
‒ Treinei como se estivesse com minhas duas espadas, imaginando um oponente na minha frente - continuei contado a história à Saphira, o bolo na garganta aumentando cada vez mais conforme me aproximava do fim. - Girei a adaga e mirei no tronco da árvore, arremessando-a e a cravando bem no centro da madeira. Depois disso, decidi descansar um pouco. Deitei no gramado e fechei os olhos. - Engoli em seco, meu peito subindo e descendo mais rápido ao reviver o momento em minha cabeça.
Não sabia de onde ele tinha vindo, ou como me achara ali, mas o som grave de sua voz me fez levantar em um pulo. Ao abrir os olhos o encontrei recostado na árvore à minha frente, examinando a adaga. Era como se eu pudesse ver uma aura maligna emanando dele. Lembrava de ter sentido um calafrio percorrer meu corpo da cabeça aos pés quando ele me olhou e sorriu para mim. Um sorriso vazio, mas que me prometia problemas.
‒ O que está fazendo aqui, Minus? ‒ perguntei, muito provavelmente não conseguindo esconder o medo em minha voz.
‒ A pergunta certa, irmã, é o que você está fazendo aqui? - Ele arrancou a adaga da árvore e brincou com ela em seus dedos, transpassando-a por eles. - E, mais do que isso, por que esta belezinha está aqui?
Abri a boca para responder, mas ele me cortou com um movimento de mãos. Riu baixinho enquanto balançava a cabeça e brincava inconscientemente com a arma.
‒ Não precisa inventar desculpas, Rosette - afirmou com voz mansa. - Você estava treinando, não é?
Fiquei calada, intercalando o olhar entre o rosto de Minus e a adaga em sua mão. Sua expressão era indecifrável, eu não sabia o que esperar daquela conversa.
‒ Não contarei para o papai, se é isso que a perturba. - Suas palavras, que deveriam me acalmar, só aumentaram o pânico dentro de mim. Ele maquinava alguma coisa dentro de sua cabeça, e nada de bom poderia sair daquilo. - Mas, entenda, tudo vem com um preço. Seria idiotice da minha parte deixá-la sair impune com isso, sabe? E,  como futuro rei, não posso permitir que minha própria irmã cometa tal atrocidade.
Atrocidade? Eu só estava treinando, seu filho da…
‒ Por isso - ele continuou -, não me resta escolha.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, vislumbrei a adaga sendo jogada na minha direção, mirando minha cabeça. Consegui desviar por um milésimo de segundo, sentindo a lâmina cortar minha bochecha. Girei o corpo e me levantei, fugindo de Minus, mas ele não me deixaria escapar tão facilmente. Em poucos segundos, já estava atrás de mim, e, em seguida, jogava o corpo de encontro ao meu. Enlaçou a minha cintura e nós dois caímos com um baque, ele por cima de mim. A força do encontro me fez perder o ar e minha visão ficar turva. Passaram-se segundos até eu conseguir focalizar o mundo à minha volta. Pisquei duas vezes, mas não encontrei Minus de imediato. Por ingenuidade, pensei que tivesse ido embora, mas só quando percebi o quão ridícula era ideia senti algo duro e pesado atingir minha cabeça, fazendo-me apagar.

4 comentários :

  1. Respostas
    1. Sim, sim! Foi o primeiro livro que comecei a escrever, mas tinha dado uma parada e escrevi um romance haha
      Fico feliz que tenha gostado :) Volte sempre e, se quiser, dê uma olhada nas nossas resenhas!

      Beijoos!

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  2. Ai socorro! posta o próximoo!!! Sua escrita é perfeita e fascinante!

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    1. Hahaha Assim eu até choro de emoção!
      Vou postar sim. Não posto tudo porque quero publicar - e ainda não terminei -, mas na sexta-feira terá capítulo novo.

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