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06 dezembro 2015

O Príncipe Herdeiro

Hello, hello, hello!
     Talvez muitos de vocês não entendam o que vou falar agora, mas os que conhecem o blog desde o nascimento prematuro vão sacar. Lembram de O Tempo de Antes, né? O livro que eu e meus primos estávamos escrevendo e eu comecei a postar aqui(toda aquela história de blog narcisista).
     Pois bem, decidi reescrevê-lo. A essência será a mesma, mas minha escrita melhorou bastante no decorrer do ano, então não vejo motivo para não melhorar meu bebê e dos meus primos. Nossa, isso soou tão errado.
     Mas enfim, postarei o prólogo e o primeiro capítulo. Se gostarem, posso até postar o segundo. Veremos. Sem mais delongas, O Príncipe Herdeiro para vocês...

Prólogo
Vaalbara
Era noite e nada fora do comum acontecia. Pelo menos não até ouvir o barulho de passos apressados e vozes ecoando pelo corredor e, em seguida, uma forte batida escancarando a porta do meu quarto. Pelo tom cordial, minha mãe falava com o rei. Como já passara da minha hora, fingi-me adormecida e comecei a ouvir à discussão.
‒ Vossa Majestade está enganada. Vaalbara nunca viu tal situação! – minha mãe, Nadia, tem o dom da clarividência. – Não se esqueça dos Tempos de Antes, a profecia está se concretizando.
‒ Não diga tolices! Há anos que se fala dessa profecia e nada ocorre. Nada. Começo a duvidar de seu posto de oráculo. Nem ao menos consegue prever um simples ataque ao reino, que dirá tamanha catástrofe! Há mais de mil anos não se ouve acerca de dragões, por que diabos voltariam agora?
Catástrofe? Dragões? Mamãe nada comentou no passar dos dias, então, por quê? Não há razão para tal, a menos que... – Sim, era a única explicação. Nos últimos dias, minha mãe andava exausta, falava sozinha e, por mais que não quisesse me preocupar, eu sabia que havia algo de errado. Nunca havia presenciado, mas era a única explicação plausível para seu comportamento.
Tivera uma profecia.

Devido ao meu devaneio, esqueci-me da discussão, só ouvindo o burburinho vindo de minha mãe - como uma espécie de prece - logo após a saída do rei. Ela veio ao meu encontro e em meus cabelos murmurava incessantemente:
‒ Por favor, que esteja errada. Por favor, que esteja errada. – Seu tom era de súplica, me deixando ainda mais atordoada. Ela nunca suplicava.
Vendo seu desespero, abracei-a. Não me importava se devia estar dormindo, queria apenas confortá-la, convencê-la de que nenhum mal cairia sobre nós. Ela me olhou, chorando, e por um momento vi seus olhos perderem a vida. Mas apenas por um momento. Quando abriu a boca, tudo retornou. Não havia desespero, tristeza, insegurança, só a voz forte e imponente de minha mãe.
‒ Preciso lhe contar uma coisa, Aradia, mas não quero lhe amedrontar. Em uma profecia, vi o futuro desta terra e era muito longe do desejável. Lembra-se das histórias que lhe contava sobre os dragões? Não são apenas histórias. Por muito tempo, dragões viviam por aqui. A Vaalbara que conhece não era assim. Havia quatro países que possuíam seu próprio rei, com características bem distintas, mas que em conjunto tinham o necessário para formar um reino. Apesar das disputas pela supremacia, vivia-se em relativa paz. Porém, o caos se instalou. Todos os dias, dragões atacavam os castelos, cidades inteiras eram dizimadas e... – Vendo minha reação, ela parou e, fazendo um carinho na minha bochecha, continuou em tom mais terno. – Não gostaria de lhe contar, mas você precisa saber. O que está por vir depende disso.
Apesar de não entender o que minha mãe dizia, apenas assenti e deixei-a continuar.
Capítulo 1
Alguns galhos cortavam meu rosto e outros se quebravam aos meus pés. O cheiro das folhas molhadas devido à garoa de mais cedo fazia com que eu me sentisse em casa. Meu nome é Belsazar e tenho treze anos. À minha frente, correndo a todo vapor, estava meu irmão, Merodac. Eu lutava para alcançá-lo, meus pulmões já queimando por causa do esforço. Sendo mais novo, franzino e desajeitado, era uma tarefa praticamente impossível disputar uma corrida até nosso ponto de encontro, onde pescávamos, caçávamos e passávamos nossas tardes: a Floresta das Lamentações.
A aproximadamente cem metros de distância, Merodac se virou para mim, caminhando de costas para admirar meu sofrimento.
‒ Belsazar, não morra no meio do caminho! Espero que se lembre que ainda precisa pescar! - bradou com um sorriso. Aquele maldito sorriso enquanto debochava de mim era o que mais me irritava no meu irmão mais velho. Não satisfeito, continuou: ‒ Se ficar para trás, não poderei protegê-lo. E você sabe que alguns animais daqui adoram uma carne magra...
Com uma risada gutural, ele se virou rapidamente e retomou a corrida, não me dando tempo de protestar. Cinco minutos mais tarde e muitos machucados a mais, finalmente saí da floresta, desembocando no gramado verdejante. Merodac já estava acomodado um pouco mais adiante, sentado à margem do rio que cortava o campo. Do lado oposto estavam as quatro pedras enormes que formavam nosso refúgio. Quando éramos mais novos, subíamos até o ponto mais alto e observávamos os peixes nadando para lá e para cá no rio, carregados pela branda correnteza. Merodac portava uma lança e eu, um arco e flecha, que uso até hoje. Disputávamos quem conseguia pegar cinco peixes primeiro e, obviamente, ele sempre ganhava.
Merodac jogou a cabeça para trás, piscando um olho ao me ver.
‒ Venha cá, irmãozinho. ‒ Fiz o que pediu e me sentei ao seu lado. Ergui os joelhos até a altura do peito e admirei o céu azul à procura de nada em especial, apenas admirando a vista.
‒ Bel ‒ ele me chamou e desci os olhos até os seus. ‒ Já te contei sobre a história da floresta?
Bufei, revirando os olhos.
‒ E desde quando floresta tem história?
‒ Deixe de ser ignorante. Como você bem sabe, esta não é uma floresta qualquer; é a Floresta das Lamentações. ‒ Ele me olhou furtivamente, com um sorriso brincando nos lábios. ‒ Ou você acha que ela tem esse nome à toa?
Suas palavras me fizeram lembrar imediatamente dos burburinhos que ouvíamos no vilarejo. Não era costume dos moradores se aventurar pela floresta, e sempre havia uma espécie de medo ao mencioná-la... eu só não entendia o porquê.
‒ Então? ‒ Merodac insistiu. ‒ Quer saber ou não?
‒ Desembuche logo! Você vai contar, não importa o que eu diga.
‒ Tudo bem, tudo bem. ‒ Respirou fundo e fechou os olhos, como se o que estava prestes a dizer exigisse muito esforço. ‒ Há muito tempo, alguns habitantes do vilarejo costumavam morar aqui. Tinham mais liberdade, pois faziam suas próprias regras e, veja bem, os vizinhos não eram um problema. ‒ Isto me arrancou um sorriso. ‒ Mas, dentre todas as famílias, uma se destacava. Os Manes. Eles moravam em uma cabana bem parecida com a nossa, só que algo parecia fora do comum. Rumores se espalharam, dizendo que espíritos malignos de bruxas assombravam a casa. Todos os dias, a filha do casal aparecia com marcas no pescoço e pulsos, arranhões nas coxas e mãos feridas, como se tentasse escapar de uma prisão; mas nada acontecia com os pais, o que fazia parecer que eles a maltratavam. O tempo passou e os casos continuaram ocorrendo, até que, em uma manhã, os pais da menina apareceram pendurados em uma árvore, virados de ponta à cabeça com os olhos arrancados, as gargantas e os pulsos cortados.
Engoli em seco.
‒ E a menina? - perguntei, relutante.
‒ Não se sabe ao certo... ‒ ele respondeu com ar misterioso ‒ apesar de toda noite ouvirem-se preces, choros e lamentos. Alguns até dizem a ter visto sentada na mesma pedra em que costumamos ficar, chorando a morte dos pais. ‒ Ele fez uma pausa dramática. ‒ Isso não o preocupa, certo?
‒ Nem um pouco ‒ menti. Claro que sim!
‒ Que bom, porque essa é uma história feita para assustar criancinhas choronas, entende? ‒ Merodac lançou um olhar para mim, como se me desafiasse a dizer algo.
Limpei a garganta e desconversei:
‒ Bom, depois dessa interessantíssima história, o que acha de hoje invertermos as funções: eu caço e você pesca? ‒ Era sempre difícil convencê-lo a me dar uma chance, mas eu nunca me cansava de tentar. Ainda mais que queria mudar de assunto. Juntei as mãos e implorei com os olhos. ‒ Por favor, Mero.
Ele me examinou por alguns instantes e depois balançou a cabeça, parecendo estar em um conflito interno.
‒ Não sei ‒ disse. ‒ Mal consegue pescar, imagine caçar um coelho. Além disso, o espírito ainda pode estar vagando por aí...
Trinquei o maxilar, cansado dele me subestimar. Meu arco estava preso às minhas costas por uma cinta de cavalo que eu roubara alguns meses antes. Tirei-o de lá e pulei no rio, que não era muito fundo, e nadei até a margem oposta. Merodac observou toda a cena calado e de braços cruzados na altura do peito. Um peixe esbarrou na minha perna e senti uma onda de choque percorrer meu corpo da cabeça aos pés. Por um momento, pensei que fosse o espírito da menina.
Consegui atravessar o rio relativamente rápido para alguém que só estava nadando com uma mão, já que precisava proteger meu arco da água. Joguei-o na grama e forcei meu corpo para cima, chegando à terra firme. Minhas roupas ‒ trapos que meu irmão tinha arrumado para nós dois ‒ estavam encharcadas, mas secariam rapidamente por causa do calor. Apanhei o arco e preparei uma flecha.
‒ Lembre-se de que só temos duas flechas sobrando, pirralho - Merodac alertou com aquele sorriso zombeteiro.
Não tinha cem por cento de certeza de que conseguiria, mas não o deixaria falar daquele jeito comigo. O campo era extenso, mas à minha frente havia o início de uma floresta de copas largas, idêntica àquela que nos trouxe até aqui. Recostei-me nas pedras para me esconder e tornei a preparar o arco. Fechei os olhos por alguns instantes, concentrando-me nos barulhos da natureza. O ar quente soprava meus fios ruivos. Abri os olhos e me demorei à procura de algum animal. Uma movimentação me chamou a atenção e foi então que o avistei, próximo a uma das árvores, procurando por comida.
Que coincidência.
Imitei a postura do meu irmão, encostando minha boca no beijador e mirando bem no meio dos olhos da criaturinha felpuda. Mirar, respirar, soltar. Simples, sem erro.
Três... Dois... Um...
Whap! Em cheio!
Mal pude acreditar no que via. Merodac, pelo que parecia, também não. Durante alguns segundos, não consegui ouvir nada além das batidas do meu coração, até os sons exteriores retornarem e eu escutar as palmas do meu irmão, que gargalhava de felicidade.
Virei para ele com um sorriso de orelha a orelha.
‒ Tenho que admitir: para um magrelo, você até que atira bem.
Sorri triunfantemente e fui buscar o coelho. Arranquei a flecha e o segurei pelo colarinho. À beira do rio, joguei o animal para o meu irmão, que o segurou habilmente. Atravessei novamente as águas e, mais uma vez de volta à grama, declarei pretensiosamente:
‒ Agora que aprendeu como se faz, vá logo pescar para darmos o fora daqui.


Uma hora e meia mais tarde, estávamos voltando ao vilarejo. Vivemos em Albus, o reino ao norte de Vaalbara. Nosso continente divide-se em quatro reinos: Albus, ao Norte, governado pela família Azrael; Aurea, ao Sul, pelos Alberona; Rubrum, ao Leste, pelos Pantaleão e Nigrum, a Oeste, pelos Bemonth. Quatro países que vivem em relativa paz devido ao acordo firmado há milênios pelas primeiras famílias reais.
Em Albus, a cidade cresceu em torno do castelo, que é cercado circularmente por muros altíssimos, com arpões em todo seu entorno e canhões espalhados por sua extensão. Mas isto se restringe aos nobres. Nos vilarejos - a parte baixa da cidade onde a maioria do povo mora, incluindo eu e meu irmão - só havia alguns soldados, apenas para preservar a ordem. Acreditava-se que a estrutura era para proteção do castelo contra os demais exércitos dos países, mas a quantidade de armamento e a altura dos muros seria desnecessária, fazendo-me acreditar que havia algo maior por trás. Só não sabia o quê.
  O que nos distinguia dos demais povos era nossa sabedoria e conhecimento. Em momentos de guerra nos sobressaíamos, tanto por nossas estratégias de combate quanto pelo armamento. Albus é o único país onde encontra-se o metal Primeriun - o mais resistente de todos conhecidos -, manipulado pelos melhores ferreiros para ser então forjado nosso arsenal. O único mal aqui presente, a causa de nossa pobreza e fome, é o rei Ignare, que governa absorto aos problemas alheios.
Conforme nos aproximávamos da entrada que abrimos na cerca que circunda o vilarejo, fiquei incomodado com o silêncio de Merodac durante todo o caminho de volta.
‒ No que está pensando? - quis saber, me recusando a fazer contato visual.
Ele olhou para mim com um sorriso triste.
‒ Na mamãe.
Engoli em seco, tentando desfazer o nó que se formara na minha garganta. Minha mãe tinha morrido há dois meses e a falta que ela fazia era incontável. Meu peito apertava só de pensar em seu rosto sorridente, mas cansado ao mesmo tempo, tentando esconder qualquer vestígio de sofrimento para que não precisássemos nos preocupar. Sem minha mãe, só sobrávamos eu e meu irmão em casa. Meu pai? De acordo com meu irmão, ele nos abandou assim que eu nasci. Merodac não gosta de falar sobre ele, talvez nem se lembre, e eu nunca me atreveria a questionar minha mãe acerca do homem que a abandonara.
‒ Também sinto saudade dela ‒ balbuciei. ‒ Mas não é só isso que o está incomodando, não é?
‒ Por que tantas perguntas? ‒ disse ele, rindo. ‒ Mas está certo, também estava pensando no recrutamento.
Recrutamento. Ao som da palavra, meu coração acelerou. Aos dezessete anos, os homens eram convocados a se alistar para a Custodi Alba, a tropa de Albus.
‒ Sabe que daqui a alguns dias farei dezessete anos e terei que partir, irmão ‒ Merodac continuou. ‒ Me preocupo em como ficará.
‒ Não há com o que se preocupar ‒ desconversei. ‒ Você me viu hoje, já estou quase tão bom quanto você. Nem devo sentir sua falta ‒ brinquei. Ele sorriu, mas fracamente. Não era verdadeiro, muito menos o que eu dissera. Era incontável a falta que ele faria. Eu já havia sido abandonado por um pai que nem ao menos conheci, mamãe morreu há dois meses e agora também perderia meu irmão para o exército. O ano não poderia ser melhor.
Como de costume, tínhamos pegado o caminho pela floresta que levava à parte de trás de nossa cabana. Percorremos os últimos metros em silêncio. Chegando, Merodac se ocupou com o coelho. Sentado à mesa, com a cabeça apoiada nas mãos, eu observava os arredores. Se fosse comparar nossa cabana com as demais, seria vergonhoso. Ela era feita com madeira já gasta pelo tempo. Nossos quartos não eram muito melhores, as camas já comidas pelos cupins, e o mesmo poderia dizer-se dos outros cômodos. Mas, de alguma maneira, aquele era meu lar, e não seria tão aconchegante se houvesse algo de diferente.
Pronto o coelho, sentamos.
Mal começamos a comer e um som estridente veio de fora, fazendo Merodac parar sua garfada no meio do caminho. De novo, dessa vez mais alto. Parecia um grito. Ele levantou-se e também o fiz. Ao sair de casa, identificamos o que era: guerra. O combate se dava a poucos metros.
Ao longe, centenas de homens loiros eram vistos, trajando armaduras com detalhes em dourado. Soldados de Aurea. A invasão devia ter eclodido alguns minutos antes, pois já se podiam ver algumas moradas em chamas. A Custodi Alba adentrara o vilarejo pelos grandes portões, pondo-se em combate. Havia sangue por toda parte.
Merodac, por algum impulso suicida que eu desconhecia, saiu correndo de dentro de casa e foi de encontro a um soldado aureano. Com um golpe bem aplicado, acertou o esterno do homem, que caiu gemendo. Apanhando a espada que caíra, Merodac atravessou a lâmina no soldado e começou a desferir golpes nos demais. Por mais incrível que soe, estava ganhando. Com investidas rápidas e esquivas não muito diferentes, derrotava um por um do exército inimigo. Ao redor, um punhado de soldados da Custodi auxiliava o povo cujas casas estavam em chamas. A outra parte lutava bravamente contra os aureanos. Aos poucos a leva foi cessando, e Merodac já não tinha nenhum oponente. Lançou um olhar para mim. Parecia exausto, mas era impossível não perceber o quanto estava feliz. Tinha nascido para isso.
‒ Viu isso, Bel? Se quiser chegar aos meus pés, vai ter que treinar muito. ‒ Ele vinha ao meu encontro com a espada em mãos, com um tom mais debochado impossível. ‒ Também quer se arriscar na próxima? Talvez tenha sorte igual com o coe...
Parou de falar. Na hora, não entendi o porquê, mas logo descobri. Uma flecha o acertou, pelas costas, atravessando sua barriga. Ele caiu aos meus pés e em seu lugar pude ver o rosto do bastardo que o acertou. Uma onda de adrenalina se alastrou pelo meu corpo. Apanhando a espada de meu irmão, corri na direção do soldado e este, surpreso, ficou imóvel. Azar o dele. Golpeei, com toda minha força, seu abdômen, sem saber direito o que estava fazendo.
Morto. Incrível o que a raiva nos fazia.
Retornei correndo para o lado de meu irmão. A flechada havia sido pior do que imaginava. Foi profunda e o cheiro de veneno que exalava também não ajudava em nada. Já em prantos, quebrei a flecha e pus sua cabeça sobre meu colo. Ele já tinha os olhos vidrados e havia sangue nos cantos de sua boca. O rosto já não era mais o mesmo. A pele pálida em contraste com seus cabelos ruivos era assustadora. Não era meu irmão. Minhas mãos tremiam sem parar. Tremiam tanto que eu não conseguia segurar o rosto dele.
Numa tentativa de falar comigo, ele começou a engasgar-se no próprio sangue e a tossir desenfreadamente, só fazendo aumentar ainda mais meu desespero.
 ‒ Bel... ‒ ele pronunciava com uma voz baixa, fraca.
 ‒ Por favor, não. Não me deixe sozinho ‒ implorei. - Já perdi a mamãe, não me deixe sem você. Tudo menos isso, por favor.
 ‒ Belsazar! ‒ seu tom reverberou incrivelmente alto. Impressionante. Mesmo naquele estado, ainda retirava forças para me repreender. ‒ Você terá... que seguir sozinho daqui para frente... irmãozinho, me prometa... que conseguirá. Prometa que... não importa o que aconteça, vai se lembrar de mim... e da mamãe, e continuar seguindo em frente. Faça isso por mim. ‒ Assenti, não confiando na minha voz. As lágrimas escorriam pelas minhas bochechas e pousavam em sua testa. ‒ Sinto muito, Bel...
Silêncio.
Merodac. Morto.
Eu estava sozinho.
Em meu transe, ainda conseguia ouvir os gritos desesperados dos moradores do vilarejo. Quase todas as casas estavam em chamas, o povo se reunia na rua. A cidade estava pintada de vermelho e mais aureanos chegavam, massacrando os soldados da Custodi.
Eu não podia ficar aqui. Tinha prometido a Merodac que continuaria seguindo em frente. Que sobreviveria por ele.
Não queria deixá-lo ali, mas não havia o que fazer. Não podia carregá-lo para dentro de casa, pois tomaria muito do meu tempo e eu precisava fugir o mais rápido possível. Olhando Merodac por uma última vez, despedi-me beijando sua testa demoradamente, desejando que fosse eu em seu lugar.
Tirei sua cabeça do meu colo e deitei-a no chão cuidadosamente. Depois, saí correndo, procurando por uma rota de fuga da cidade e daquele banho de sangue. Poderia escapar para outros vilarejos, mas não sabia como estava a situação lá. Talvez os aureanos tivessem atacado-os também. Seguir pela floresta seria minha última opção, pois a noite já chegara e eu com certeza seria devorado pelas criaturas.
Enquanto adentrava mais a cidade, desviando-me da confusão, aproximava-me do muro. Na sacada do castelo, em sua parte mais alta, avistei o rei Ignare.
Era um homem robusto, com rosto quadrado, cabelos ruivos e olhos tão azuis quanto os meus. Era a primeira vez que o via, e o que mais me intrigou foi sua expressão: mesmo após todo aquele derramamento de sangue ele... ria! Milhares de pessoas mortas e o desgraçado ria de tudo aquilo, como se seu povo nada fosse!
Contive o impulso de tirar aquele sorriso de seu rosto.
A lua estava cheia, banhando o campo de batalha com sua luz. Naquela noite, onde em um intervalo de tempo tão insignificante eu perdera meu irmão e agora vagava sem rumo, não fazia ideia do que esperar.

Só Deus sabia o que seria de mim.

4 comentários :

  1. Parabéns, você escreve muito bem! E confesso que mesu olhos de encheram de lágrimas com a morte do irmão de Bel. Parabéns novamente, que venha mais capítulos...

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    Respostas
    1. Obrigada, Nayane! Fico feliz que tenha gostado :)
      Vou postar o segundo capítulo no final da semana, mas infelizmente será o último, pois penso em publicar assim que finalizar.
      De qualquer jeito, muito obrigada pelo apoio!

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  2. Nossa, ficou realmente muito bom, parabéns, de verdade, bom saber que sua escrita só melhorou com o passar do tempo, é maravilhoso quando isso acontece né?!
    Estou seguindo e adorando o blog <3
    Beijos.
    Tenho um blog no qual falo sobre filmes, series e cultura no geral. Se puder dar uma conferida ficarei muito grata: http://cineleva.blogspot.com/ :)

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    Respostas
    1. Oii, Willma! Fico feliz que tenha gostado tanto do capítulo quanto do blog. É sempre bem-vinda!
      Ah, e claro que vou conferir seu blog :)

      Beijoos!

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