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17 dezembro 2015

O Príncipe Herdeiro - Capítulo 2

Só para o blog não ficar muito parado... Estou terminando dois livros e em breve teremos resenha ;)

Capítulo 2
Desviei o olhar da figura de Ignare e tornei a fugir, virando à esquerda e correndo até a entrada principal da cidade, que era guardada por dois soldados. Chegando ao caminho de pedras que se estendia até os altos pilares que delimitavam a cidade , não encontrei os guardas. Em cada um dos pilares havia uma chama acesa, iluminando parcialmente o caminho. Ao me aproximar do local, descobri o que tinha acontecido com eles. Ambos estavam estirados no chão com as gargantas cortadas de tal modo que pareciam sorrisos, o sangue escorrendo por seus pescoços e tingindo de vermelho a malha branca por baixo de suas armaduras.. Os olhos, vidrados como os de Merodac.
Senti meu coração apertar e uma súbita falta de ar. Levei a mão ao peito, pressionando-o fortemente, mas a dor não passava. Na verdade, só parecia aumentar. As lágrimas ameaçaram cair, mas as contive. Passos se aproximavam, não havia tempo para isso.
Olhei para os lados à procura de algum refúgio, mas o máximo que pude fazer foi me jogar no barranco e quicar pela grama até atingir a água fria do lago. Engoli um pouco d’água e precisei desesperadamente tossir. Por sorte os aureanos não pareceram notar a minha presença. A água estava congelante e, sem o calor do sol, minhas roupas não secariam tão cedo. Se não morresse pela espada dos aureanos, a hipotermia trataria do serviço. Além disso, como se minha desgraça não fosse suficiente, de acordo com Merodac o lago era repleto de crocodilos. Torcia para que não estivessem com fome.

Acima de mim, as duas sombras avançavam pelo caminho de pedras em direção ao vilarejo. Com muito esforço, pude ouvir sua conversa:
‒ Você viu a cara que fizeram? ‒ um deles fez a pergunta, que foi precedida por uma risada alta e engasgada. ‒ Não há nada mais fácil que matar um reles guarda de Albus, minha amiga!
‒ Quando poderemos sair daqui? - outra voz quis saber..
‒ Logo, espero. Nossas tropas estão cercando todo o perímetro. Assim que pegarmos o que precisamos, vamos embora.
‒ Ainda bem. Não aguento mais nenhum segundo nesta maldita terra. Devíamos matar todos, incluindo o rei.
‒ Não seja idiota, Karthagena - o homem a repreendeu. - Já estamos em maus lençóis por termos atacado-os sem motivo, não tente piorar a situação. Violamos o tratado, certamente sofreremos as consequências.
‒ Mas, Jarn, nosso rei disse que não haveria problema contanto que o ataque fosse justificado pela proteção do povo.
O homem, Jarn, parou de andar e cuspiu no chão. Ele olhava para baixo, exatamente na minha direção, fazendo-me questionar se sabia da minha presença. Mas era óbvio que não, pois, se soubesse, eu já não estaria mais respirando. Agradeci silenciosamente pelas noites em Albus serem tão escuras.
‒ Desde quando isso teve a ver como o povo? - Jarn balançou a cabeça. - Não acredito no rei - confessou. - Sou seu braço direito e é meu dever servi-lo, mas isso não quer dizer que devo concordar com todas as suas escolhas. Se não o conhecesse, contestaria sua decisão, mas sei que no minuto seguinte meu pescoço estaria na forca. Vossa Majestade Alberona está cego pelo poder.
‒ O que está querendo dizer? - Karthagena o questionou com ar preocupado. Ela também havia se aproximado da borda do barranco, de forma que também estava exatamente acima de mim.
‒ Quero dizer que só estamos aqui por causa do Primerium. Em uma de minhas reuniões privadas com o rei, ele mencionou guerra. Obviamente está buscando o metal mais resistente conhecido nas quatro terras..
‒ Isso não vai terminar bem - a mulher murmurou. Quase não consegui ouvi-la, tão baixo foi seu tom.
Os dois permaneceram em silêncio e tornaram a caminhar. Era minha chance de sair dali. Com cautela, escalei o barranco, agarrando-me com força ao solo, abrindo buracos em sua superfície para poder me sustentar no caminho até o topo. Quando estava bem próximo, examinei furtivamente o local para ter certeza de que não havia sinal dos aureanos.
Tendo admitido a área como segura, rolei pelo chão, chegando ao meu destino. Levantei-me rapidamente, um rápido flashback da conversa dos soldados passando em minha mente. Eles disseram que o perímetro estava todo cercado, ou seja, eu encontraria aureanos não importava aonde fosse. Nem se estivesse com meu arco conseguiria derrotá-los, já que só tinha mais uma flecha. Examinando minhas possibilidades - que não eram muitas -, decidi que a Floresta das Lamentações era a melhor das minhas horrendas opções. Pelo menos não estaria vagando às cegas e poderia encontrar comida e abrigo com mais facilidade.
Voltei furtivamente para o vilarejo com a minha atenção redobrada. Seria uma tarefa complicadíssima chegar à minha cabana sem ser pego, mas ao menos tinha a vantagem de conhecer a arena de batalha.
Após subir no telhado de uma das casas e examinar o terreno, pude constatar que uma grande maioria dos soldados aureanos estava no centro do vilarejo, em uma espécie de reunião, então escolhi as ruelas como principal caminho, andando pelas sombras para que não fosse descoberto. Em meio a uma das minhas corridas desenfreadas a céu aberto, sem nada para me camuflar, encontrei duas crianças com os rostos manchados de vermelho. Elas estavam escondidas no vão entre duas moradas, chorando copiosa mas silenciosamente. Tentei prestar algum socorro, mas elas estremeceram ao meu toque e, quando forcei o contato, correram desesperadas para longe de mim. Três aureanos as encontraram e num piscar de olhos arrancaram suas cabeças. Involuntariamente, soltei um grito desesperado, o que chamou a atenção dos soldados. Grande erro.
Eles gritaram alguma coisa aos demais e começaram a correr atrás de mim, obrigando-me a mudar o meu percurso. Um deles portava uma lança, que foi jogada na minha direção e só não me acertou porque tropecei em um dentre as dezenas de corpos no chão. Molhei minhas calças por causa do susto, mas continuei correndo.
Virei à esquerda, depois direita e direita de novo, passando veloz e habilmente pelo labirinto de becos estreitos do vilarejo. Eu conhecia aquele lugar de cima a baixo desde que tinha sete anos de idade e precisava escapar dos guardadas por ter roubado um pão e um pedaço de carne.
Os três soldados ainda estavam na minha cola, parecendo incansáveis. Eu, pelo contrário, mal me aguentava em pé. Já estava cansado da maratona matinal até a Floresta e por isso amaldiçoei inconscientemente Merodac por ter me convencido a correr, prometendo a mim mesmo que o faria pagar… Mas ele já tinha pago. Estava morto, não havia maldição que superasse isso.
Engoli em seco, meus olhos ardendo e embaçados por causa das lágtimas.
Não há tempo para isso, disse a mim mesmo repetidamente.
Finalmente desemboquei na reta que dava em minha casa, o que me deu forças para continuar. Passei pelo corpo do meu irmão evitando fazer contato visual, e escorreguei até a parte de trás da minha casa, passando direto pelo buraco na cerca. Não sabia se os aureanos perceberiam meu movimento, só tinha consciência de que precisava continuar.
Uma pequena ladeira levava ao caminha da floresta e, por estar correndo, tropecei no meu próprio pé e rolei, rolei, rolei, até encontrar o chão duro. Bati a cabeça em uma pedra e fiquei alguns segundos tonto. Levantei e a vertigem me atingiu, fazendo-me cair novamente.
‒ Ali! - um dos soldados bradou. - Vamos matar esse moloque!
Pus-me de pé e tornei a correr. Não havia mais vertigem, só o desejo incansável de viver. Engraçado, há menos de uma hora eu queria ter morrido no lugar do meu irmão e, agora, lutava com todas as forças para isso não acontecer.
As últimas palavras de Merodac surgiram em minha memória:
Prometa que… não importa o que aconteça, vai se lembrar de mim... e da mamãe, e continuar seguindo em frente.
Sim, irmão. Por você.
Olhei para trás a tempo de ver um dos soldados se estatelar no chão como acontecera comigo, e me permiti soltar uma gargalhada. Pulei um dos troncos caídos, pousando de pé e ainda correndo, distanciando-me cada vez mais daqueles que queriam me matar. Merodac ficaria orgulhoso.
Alguns metros à frente, perto de onde a floresta terminava e os campos verdejantes surgiam, parei. Procurei pelos arredores algum refúgio até encontrar duas árvores retorcidas, que dariam um belo esconderijo e me forneceriam abrigo se eu ficasse bem encolhido.
Olhei por sobre o ombro, mas a floresta já era densa demais, não permitindo que a luz da lua a adentrasse e fornecesse o mínimo de luminosidade. Joguei a cabeça para trás, admirando o “céu” negro de folhas. Por sorte estava acostumado àquela escuridão, já que Merodac às vezes teimava em caçar até tarde com a desculpa de que melhoraria minhas habilidades com o arco e instintos - o que não se mostrou falso -, quando na verdade ele não queria ir para casa e encontrá-la vazia, pois minha mãe acabara de morrer. Eu sabia disso porque me sentia da mesma maneira.
Fui até o esconderijo e me enrosquei nas raízes, entrando no minúsculo buraco que formavam. Se fosse claustrofóbico com certeza já estaria tento uma crise, desesperado por mais espaço. Fechei os olhos e agucei meus ouvidos, à procura de sinais dos soldados. Um minuto mais tarde, comecei a ouvir o som de seus passos esmagando as folhas e os galhos no chão. Estavam próximos. Mais alguns segundos e percebi que passaram direto por onde eu estava. Segurei o riso e dei um soquinho no ar, feliz que meu plano tinha dado certo. Ainda assim, consegui ouvi-los xingando baixinho provavelmente ao chegarem ao campo e não encontrarem nada fora os pássaros, peixes e vagalumes.
Esperei ouvi-los fazendo o caminho de volta e aguardei por alguns minutos até ter certeza de que tinham partido de vez para então sair do esconderijo. Fui até o rio, o reflexo da lua tremeluzindo por causa águas corredeiras, e me sentei na margem, colocando meus pés dentro da água, o frio dela se fundindo com o calor do meu corpo. De um segundo para o outro, sem muita explicação e no silêncio acolhedor da floresta, minhas lágrimas se misturaram à água que passava por meus pés. Agora que a adrenalina de antes tinha se dissipado, o bolo na minha garganta se desfez e a confusão de sentimentos que se acumulara em meu estômago era expelida na forma de lágrimas. Lembrei da história que Merodac me contara mais cedo, me colocando imediatamente no lugar da menina. Talvez não fosse uma história, afinal de contas. Quem sabe os lamentos ouvidos pelos moradores viessem de algum outro alguém que chorava a perda de um ente querido.
Meu peito subia e descia em espasmos desengonçados, e minha cabeça latejava como se a tivessem martelando. Numa tentativa de me acalmar, mergulhei no rio. Atingi rapidamente o fundo deste, que não era tão profundo, apenas 1,70m. Relaxei meu corpo, que foi levado pela correnteza durante um tempo até eu decidir me agarrar a algum suporte para não ir longe demais, para alguma parte da floresta que eu não conhecia.
Não sabia o que seria de mim sozinho. Apesar de Merodac ter me ensinado a caçar, eu não era nenhum especialista. Ele sempre esteve ao meu lado, por isso nunca precisei me preocupar com o dia de amanhã ou com o que teríamos para comer. Merodac cuidava de mim tanto como irmão mais velho quanto pai. Sem ele, estava perdido.
Quando o ar me faltava, emergi. Nadei até a mesma margem em que estava, lutando contra a fraca correnteza, e suspendi meu corpo até estar em terra firme. Desabei no chão, o corpo estirado na grama.
Crec.
Levantei-me rapidamente em alerta. Aquilo que ouvi foi um galho sendo quebrado? O som viera da floresta.
Engoli em seco, imaginando se os soldados tinham voltado. Se tivesse trazido alguma arma, poderia tentar me proteger, mas na hora do desespero tal ideia nem passou por minha cabeça. Pus-me em posição de defesa, não havia onde me esconder. Mais um som suspeito, desta vez de algo se movendo entre as plantas.
O súbito vento forte que farfalhava as árvores e despenteava meu cabelo, fazendo as mechas ruivas caírem sobre meus olhos, tornava difícil distinguir se realmente havia uma ameaça ou se tudo aquilo era fruto da minha mente. Meu coração estava acelerando, quase saindo pela boca. Meus olhos corriam de um lado para o outro, antecipando uma emboscada.
Quando tomei coragem e procurei avançar, uma “amedrontadora” criatura saltou para fora da escuridão. Um coelho. Um maldito coelho quase me fez molhar as calças. De novo.
Em meio às minhas gargalhadas, não percebi sua presença. Tanto que, ao me virar, a surpresa em ver seu manto negro me fez cambalear.
‒ Q-Quem é você? - gaguejei.
Se me ouviu, ignorou, pois a única reação que teve foi de enfiar a mão em seu manto, fazendo-a desaparecer, e se aproximar. Seu rosto estava encoberto pelo capuz, sendo impossível identificar quem estava nas sombras. Amedrontado, tentei me afastar, mas tropecei em uma raiz e caí de costas. Aquilo ainda se aproximava a passos lentos, como se soubesse que não precisava ter pressa uma vez que eu não conseguiria escapar. Um brilho reluzente por entre suas vestes me fez presumir a existência de uma faca.
Estava acabado.

Fechando os olhos, agradeci silenciosamente por partir tão rapidamente após meu irmão… e aguardei o inevitável.

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